A memória musical do Duo Ouro Negro

A memória musical do Duo Ouro Negro

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Single “Pata Pata” uma canção imortalizada pela cantora Miriam Makeba

 

Fotografia: DR

A intemporalidade das canções que fizeram época, no período áureo da carreira do Duo Ouro Negro, demonstra, de forma inequívoca, que o processo criativo que emana do íntimo filosófico, cultural e vivencial dos povos, tem a propensão de resistir à agressividade implacável do tempo e à efemeridade sazonal das modas.
Embora com uma substancial influência da cultura portuguesa, parte substancial do legado musical do Duo Ouro Negro, entendido na sua dimensão simbólica e patrimonial, está enraizada na representatividade das tradições artísticas angolanas. “Kurikutela” (1960), Eliza (1967), “Menino de Braçanã” (1966), “Maria Rita” (1962), “Rita flor de canela” (1968) e “Amanhã” (1971) são alguns clássicos do Duo Ouro Negro, que resistem no tempo, pela qualidade da sua moldura estética e poética, e fazem parte da memória colectiva dos angolanos.
À época, o contacto permanente e activo com o universo rural contribuiu para formação do perfil artístico do duo, o que possibilitou a criação de uma linguagem musical híbrida, que recebeu aplausos fora das fronteiras de Angola, mesmo nos momentos em que as canções eram interpretadas, de forma desinibida e consciente, em línguas nacionais.

A formação do duo

Filho de mãe branca e pai negro, Raul José Aires Corte Peres Cruz, Raul Indipwo, nasceu na Chibia, província da Huíla, em 1933. Aos 6 anos aprendeu piano, em Benguela e na Caála, Huambo, com as professoras Cândida Guimarães e Dona Ofélia. O pai, integrado nos serviços de saúde do exército colonial português, facilitou a peregrinação de Raul Indipwo por quase toda extensão de Angola, desde Malange a Maquela do Zombo, passando pelas Lundas, onde o jovem assistiu a vários rituais e cerimónias tradicionais, num contacto directo e dinâmico com as populações locais.
Raul Indipwo visita, em 1955, a cidade do Uíge, convidado por um amigo, e reencontra Milo Mac-Mahon Victória Pereira, um velho companheiro com quem havia partilhado a infância em Benguela, facto que se transformou no motivo da formação do Duo Ouro Negro.
Emílio Vítor Caldeira Mac Mahon Vitória Pereira, Milo Mac-Mahon, nasceu no dia 3 de Maio de 1940, na cidade do Lubango. 
Solista da Igreja de Nossa Senhora do Pópulo, em Benguela, Raul Indipwo recebeu as primeiras lições de violão e pintura com a mãe, Arsénia da Corte Perez Cruz. A irmandade musical e o contra canto harmónico, das vozes de Raul Indipwo e Milo Mac-Mahon, decorreram de forma natural e cedo o duo foi granjeando a simpatia nos locais de festa e de convívio juvenil, na cidade do Uíge.
Durante o programa comemorativo do aniversário da Emissora Oficial de Angola, em 1956, as rádios locais enviaram programas especias para Luanda. Foi então que a Maria Lucília Pita Grós, locutora da rádio Uíge, abriu com as seguintes palavras o programa: “Angola é muito rica em ouro negro, que brota espontaneamente do chão e das minas, mas desta vez o ouro cintila das vozes de Raul e Milo” – assim surgiu a adopção da designação, “Ouro Negro”, na primeira fase, e depois, de forma definitiva, Duo Ouro Negro, em 1959.
Reconhecidamente influenciados pelo conjunto Ngola Ritmos, o Duo Ouro Negro só veio a conhecer, de perto, o grupo de Liceu Vieira Dias, em 1956. Seguiram-se contactos com a Garda e seu conjunto, o Trio Assis e o velho Fançony, figuras de cartaz na cena musical luandense da época.

A primeira aparição pública

A primeira aparição apoteótica do Duo Ouro Negro aconteceu no Cinema Restauração, em Luanda, em Julho de 1957, num espectáculo vivamente aplaudido pelo público e foi o prenúncio de uma fulgurante carreira repleta de êxitos sucessivos.
Em 1960, o duo grava o primeiro single que incluía as canções “Muxima”, um clássico angolano, traduzido em língua portuguesa, e “Kurikutela”, uma composição de Raul Indipwo, baseada no cancioneiro Tchokwe.

Polémica com “Tala ó mbundo”

Foi nesta altura que interpretam o tema, “Tala ó mbundo” (olha o preto), canção que retrata as desigualdades sociais dos angolanos, baseada na raça por hierarquias- branco, mulato e preto. Traduzida do cancioneiro popular luandense, “Tala ó mbundo” foi considerada uma canção subversiva pela censura colonial da época. Raul Indipwo defendeu-se, dizendo que “era pura e simplemente a realidade”. Daí a polícia política não poupou esforços em intimar o duo a prestar declarações sobre os reais intentos do Ouro Negro e do eventual sentido político da canção “Tala ó mbundo”.

A internacionaliazação

A internacionalização do Duo Ouro Negro começa em 1959, quando o empresário cinematográfico Ribeiro Belga, motivado pela impressão com que ficou depois de ter assistido um concerto do duo, em Lourenço Marques (Maputo), o convidou a realizar um espectáculo, na cerimónia de inauguração do Cine Teatro Roma, em Lisboa.
Daí foram surgindo sucessivas digressões do duo a Espanha, Suécia, França, China e Rússia, convidado pelo famoso palhaço Popov, Finlândia, Japão, na Expo-70 de Osaka, e América Latina.
Durante a década de 1960, recebeu inúmeros prémios e actuou para plateias constituídas por insignes figuras, como o príncipe do Mónaco, e em concertos como o da comemoração dos 20 anos da UNICEF (1967), em Paris, e na gala de abertura da terceira edição do MIDEM, em 1968.
Em 1970 acontece a primeira digressão pela Austrália e Estados Unidos, constituída por 43 concertos em universidades e teatros de 37 Estados americanos. 
Em Paris, actuou de panos tradicionais angolanos no Lydo e no Olimpya, onde teve a oportunidade d, na Casa de Angola, travar amizade com o nacionalista Mário Pinto de Andrade.

O Trio Ouro Negro

Os trios eram moda, lembremo-nos do Trio Odemira e dos Los Paraguayos, e Milo Mac-Mahon defendia que a entrada de mais um elemento tomaria o grupo rico, extensivo e mais expressivo do ponto de vista rítmico. Embora a ideia de dilatar o duo fosse contrariada por Raul Indipwo, verdade é que, em 1960, vingou a intenção de Milo. Foi assim que José Alves Monteiro (violão e dikanza), angolano, natural do Golungo Alto, foi chamado a integrar o duo.

O teatro com “Blackground”

Em 1969, Raul Indipwo começa a escrev
er a peça “Blackground”, na Argentina, e no ano em que tencionava levar a peça à Broadway, morre o seu inseparável companheiro, Milo Mac-Mahon. “Blackground” (campo negro) é uma representação teatral sobre a origem da música africana, metaforizada pela origem e formação dos rios. 
África, conta Raul Indipwo, era árida e seca, e a Xituta ou Iemenjá foi parida pelos deuses. Ela sentiu-se só e os deuses deram-lhe um filho, que ela pariu pelo umbigo, e chamou-se Rio. O filho que cresceu, atravessou a África, foi desaguar no mar e abriu os braços que se ramificaram. Cada ramificação representou um filho novo, com o de nome: Missouri, Amazonas, Mississipi e Rio de La Plata.
Com a primeira árvore nascida em África, um imbomdeiro, Iemenjá fez uma grande canoa e nela alojou todas outras vozes que desciam de outros rios: o Congo, o Niger, o Nilo, o Zambeze, o Zaíre e o Kwanza e disse: tu és o meu filho, o homem africano, que partiu, pelo rio de Iemenjá, cantando a canção da esperança com o coração representado por uma grande maraca: não te esqueças, não te esqueças “Blackground”… e assim termina a peça.

A morte de Milo Mac-Mahon

A morte do Milo Mac-Mahon, ocorrida no dia 20 de Janeiro de 1985, abalou profundamente Raul Indipwo, o que provocou o fim do duo. Raul afasta-se dos palcos, durante cerca de dois anos. “Não deixem morrer a imagem do ‘Duo Ouro Negro'”, aconselhava, consternada, Anália Victória Pereira Mac-Mahon, irmã de Milo.
Raul Indipwo, desta vez a solo, renasce com os “Irmãos Verdade” e o “Grupo Raízes”, cantando em Conacry, Dakar e Lagos e participa no FENACULT (1987), em Luanda. Grava “Meninos de oiro” (1989) e Sô Santo (1997) e cria a Fundação Ouro Negro, em homenagem a Milo, instituição filantrópica, vocacionada para o apoio profissional e artístico da juventude, tendo acolhido, em Lisboa, membros do conjunto Afra Sound Star e os Jovens do Hungo.

Raul Indipwo, o artista plástico

Raúl Indipwo fez a sua primeira exposição individual em 1970, em Lisboa, no Palácio Foz. Esta foi apenas a primeira de muitas exposições individuais em várias cidades portuguesas e outras estrangeiras. A sua obra encontra-se representada em diversos museus, instituições e colecções de todo o mundo, designadamente na Fundação Calouste Gulbenkian, Museu do Funchal, Museu Tückner em Chicago, e Museu Kennedy, em Washington.
Raul Indipwo comemorou os 50 anos de carreira, no dia 23 de Maio de 2005, com Bonga, Marisa, Luís Represas e Pedro Jóia. Nostálgico e decidido a viver, definitivamente, em Angola, faleceu no dia 4 de Junho de 2006, vítima de um linfoma, em estado muito avançado.

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