Kendrick Lamar e The Weekend, duelo de titãs no Grammy 2016

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Na verdade, tanto faz quem vai ganhar o Grammy de Melhor Álbum do Ano na edição de número 58 dessa premiação se o vencedor não for Kendrick Lamar ou The Weeknd. Tanto faz se os premiados forem Alabama Shakes, Chris Stapleton ou Taylor Swift, porque este ano vivemos um verdadeiro duelo no encontro entre dois artistas negros: Kendrick Lamar, o rapper californiano, e Abel Makkonen Tesfaye, mais conhecido como The Weeknd, canadense de ascendência etíope. Não importa que Lamar passeie pelo mundo do rap e que Tesfaye aposte no R&B, porque a questão é totalmente outra.
 
 
Se no ano passado os grandes vencedores foram essencialmente artistas brancos (Sam Smith, Beck e até Eminem, que levou o prêmio de Melhor Disco de Rap), desta vez não resta dúvida de que os artistas negros voltam a ser os grandes protagonistas da edição. À margem de nomes como os de Fetty Wap, com seu viciante Trap Queen; Wiz Khalifa, com a algo enjoativa See You Again, junto com Charlie Puth; ou os já excessivamente conhecidos Drake e Nicki Minaj, são Kendrick Lamar e The Weeknd que se destacam em algumas das categorias mais importantes. Daí o duelo.
 
Porque, de certa maneira, Lamar e Tesfaye representam as duas faces de uma mesma moeda e ambos estrearam oferecendo seu material gratuitamente na Internet, mas acabaram fazendo parte dessa descomunal multinacional discográfica que é a Universal. Tanto um como o outro assinaram algumas das grandes canções dos últimos meses, mas é a forma como encaram seu momento artístico atual o que os diferencia.
 
 
 
Beauty Behind The Madness, de The Weeknd, é uma obra de R&B suave, apesar do gosto amargo deixado por canções como Can’t Fell My Face ou The Hills nas quais Tesfaye trata temas como drogas ou o modo de enfrentar a popularidade. Kendrick Lamar, por sua vez, escolhido melhor artista internacional de 2015 pela seção de Música do EL PAÍS, volta ao Grammy com um disco importante, To Pimp A Butterfly, carregado de uma energia política e racial que muito necessária nos Estados Unidos atuais.
 
Por isso, The Weeknd grava com o também indicado Ed Sheeran ou grava compositores de eficácia comprovada, como o sueco Max Martin (antigo cantor de hard rock que assina uma infinidade de hits para Backstreet Boys, Britney Spears e Justin Bieber) e Kendrick Lamar lança mão de seus admirado Dr. Dre e George Clinton. É verdade que Can’t Feel My Face é sem dúvida um grande tema que nos traz à cabeça o universo criado por Michael Jackson anos atrás e cujo alcance supera em muito o indicado Alright de Lamar, mas o enésimo single de To Pimp A Butterfly conseguiu algo que não se consegue com colaborações ou luxuosas produções e se tornou o principal hino das mobilizações contra a brutalidade policial com as pessoas negras organizadas pelo movimento Black Lives Matter nos Estados Unidos durante o ano passado. E isso demonstra que Alright e To Pimp A Butterfly são mais do que simples material discográfico. Obviamente que se a National Academy of Recording Arts and Sciences premiasse Lamar isso também representaria um gesto ideológico maior inclusive do que o fato de premiar uma das grandes obras-primas dos últimos anos.

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