“Não é porque tem um ou dois discos no mercado que já...

“Não é porque tem um ou dois discos no mercado que já se pode considerar um grande músico”, refere Bonga

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Por: Stella Cortêz

Com uma carreira que se confunde com a música angolana e a história do país, que retrata nas suas canções e é feita de muitas cumplicidades musicais, Bonga, que transporta 46 anos de estrada no mundo da música, falou, em Luanda, da necessidade de uma mobilização geral em prol da cultura nacional e da defesa e promoção da personalidade sócio-cultural do país.

O recém-condecorado pelo Presidente da República, João Lourenço, defende a intervenção de todos os músicos angolanos, com todos os músicos a produzirem semba, a cantarem semba, como fazem os argentinos com o tango, os brasileiros com o samba. As rádios e as televisões a tocarem o semba, a promoverem o semba todos os dias, só desta forma poderão atingir um maior número de consumidores a nível mundial. “A minha música passa todos os dias, mais todos os dias nas rádios francesas e em Angola não. É uma brincadeira! Quando há eventos, o que se toca nestes locais é, maioritariamente, música estrangeira. Temos de acabar com estes comportamentos que lesam a cultura nacional e colocam em causa a identidade do povo angolano. Deve haver uma mobilização em prol da cultura nacional, para que possamos vincar a nossa personalidade sócio-cultural”, destacou o cantor.

Entre diversos assuntos abordados, o artista com 76 anos de idade, que continua versátil nos palcos, fez uma avaliação da música angolana do passado, presente e do futuro, e esclareceu que a música angolana para o futuro tem de ser do povo angolano e não pode ser música de imitação. Bonga acrescentou ainda que não é obcecado pelos jovens, netos e filhos, pois têm de ser educados, porém quando já são maiores de idade, os seus pais precisam de ter uma palavra a dizer em relação ao seu comportamento, derivado das suas experiências, vivências e das tradições.

“A música para o futuro é o que mais me preocupa, pois é no dia seguinte que temos de ter a capacidade de conservar as tradições e poder dizer que este, por exemplo, é o semba e está bem representado e não está sofisticado. Temos de valorizar o que é nosso e tratar de mostrar ao mundo o orgulho de sermos angolanos”, destacou.

O compositor, que ainda não se sente realizado, aproveitou para deixar um conselho à nova vaga de artistas angolanos, apelando para que trabalhem de forma séria, profissional e responsável, que saibam fazer as coisas e criar composições com letras cujas mensagens não firam a dignidade das pessoas. Que se façam rodear de pessoas que os possam ajudar positivamente, conselheiros que tenham moral para educar e saber dirigir. “Se queremos combater o preconceito que existe no estrangeiro contra a música angolana, uma componente importante é a formação. Não adianta pensarmos que basta segurar num instrumento musical ou abrir as cordas vocais. Não é porque tem um ou dois discos no mercado que já se pode considerar um grande músico. Temos de apostar na formação e nos dedicar muito.”

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