Um mambo que se chama Angola

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Sempre quis escrever um texto sobre Angola. Sei que o tinha guardado no meu subconsciente, repartido em pequenos excertos durante anos. Entretanto, foi num dia sem relevância alguma, em que eu deambulava contrariada pela baixa da cidade de Luanda, sob um sol ardente, que decidi tirá-la cá para fora.

Lá ía eu, quase a arrastar os passos, quando ouvi, por mero acaso, parte da conversa de dois estudantes uniformizados com batas brancas e que aparentavam ter entre 15 a 17 anos. Os seus gestos e expressões faciais indicavam tratar-se de um assunto que os interessava, mas, embora eu tentasse aproximar-me discretamente para ouvir melhor a conversa, a única frase nítida que os consegui perceber, foi uma constatação simples que disparou o clique que eu precisava, para dar forma as ideias soltas que vagueavam pela minha mente. Passo a transcrever a frase:

– Apesar de tudo, Angola é um mambo que cuia só à toa, ya!
Foi automático, mal os meus ouvidos recolheram aquela informação, eu soube exactamente o que devia escrever e, de súbito, ganhei energias e comecei a andar apressadamente, com o semblante esbanjando confiança porque aquele dia já estava ganho.

Talvez já se tenha falado muito sobre as belezas de Angola e sobre a sua notável dimensão, tal como já muito foram destacados os seus recursos naturais, o facto de ter sido colónia uma portuguesa e ter enfrentado três décadas de conflitos armados, ou seja, nada disso é novidade. Pode ser impressão minha mas, acho que se fala muito de Angola, nos mesmos contextos, caindo quase sempre nos mesmos clichés e há muito mais para se dizer.

Mais do que um simples pedaço de chão, Angola é uma nação. Uma grande e quase indescritível nação pelas inúmeras assimetrias que a compõem. Uma mãe que carrega nos seus braços milhares de filhos, biológicos, adoptivos, negros, brancos, mulatos, de norte a sul, de este a oeste, do mar ao leste e de Cabinda ao Cunene; um a um, com todas as suas culturas e tradições, sem tirar nem pôr, são todos filhos de uma mesma Angola. E, como uma boa mãe, ela vive as alegrias e tristezas, sabores e dissabores dos seus filhos, sem nunca os julgar, ainda que os veja explorar e enganar os seus irmãos, menosprezar ou destruir os seus valores e a sua identidade.

Angola é uma enorme família e, como em todas as famílias, há pessoas com personalidade e carácter diversos, cada uma à sua maneira, moldando as suas vidas segundo as suas próprias convicções, seguindo caminhos diferentes, chorando, errando ou acertando, pelo preço das suas escolhas ou simplesmente por força do destino. Alguns filhos são bons e outros maus, alguns são mais pobres e outros mais ricos, mas todos juntos fazem o POVO de Angola e este, na sua generalidade, partilha de sentimentos e características que são tão fortes e imensos que conseguem unir todos os filhos de Angola numa nação.

Falo do orgulho, muitas vezes, inexplicável que todos os angolanos sentem e que é maior do que todas as diferenças que os separam, da alegria desmesurada que nos inunda o peito e nos move, da mania insistente de espantar as tristezas e da inquietude que nos dá ritmo, e ginga para o Semba cantar, melodia e calor para Kizombar sem parar, ousadia e intimidade para a Tarrachinha inventar e dançar, e do imediatismo e criatividade que nos leva a produzir Kuduro para espalhar pelo mundo a nossa vibração.

Mais do que qualquer outro facto ou constatação é importante frisar que Angola é uma nação abençoada não só pelas suas riquezas ou belezas naturais, mas também pelo seu povo aguerrido e estranhamente feliz, não pelas suas elites implacáveis e desprezíveis, mas sim pelos seus filhos desenrascados, batalhadores e loucos, loucos o suficiente para sonhar e acreditar. Acreditar em dias melhores e sonhar com a mudança, acreditar que são especiais só por serem angolanos, e talvez o sejam. Especiais ao ponto de levantar todos os dias para recomeçar, de perdoar e receber de braços abertos todos os forasteiros e os novos irmãos. Especiais por aceitarem, tão facilmente, o novo e o diferente mesmo sem se aperceberem disso.

Ser angolano é ser acolhedor e, ao mesmo tempo, brincalhão. É achar que tudo é contornável e há sempre um jeitinho a dar. É assumir que onde come um, comem dois, que em briga de marido e mulher todo mundo põe a colher e que o vizinho também é família.
Somos assim, imperfeitos e barulhentos, inseguros e inconstantes, loucos e apaixonados, conformados e gabarolas mas, apesar de todas as burlas, esquemas e confusões, apesar de toda a poeira, dos problemas diários, da micha e do suor, apesar de todos os mambos malaikes e de todas as makas que se transformam em frustração incessante, Angola é um mambo muito fixe e ser angolano cuia só à toa.