Inicio Lifestyle Livros Acto de apresentação do livro "Zunga pão Rima com Asfalto"

Acto de apresentação do livro “Zunga pão Rima com Asfalto”

Breves palavras, muito breves mesmo, no seguimento do nosso acto que queremos que seja curto, por todas as razões e constrangimentos que nos impõe esta relação macabra com o vírus e que veio estragar terrivelmente a nossa rotina.
 
Em primeiro lugar, devo dizer que gostaríamos de ter mais gente hoje aqui. Mais gente não por qualquer vaidade bacoca do nosso lado, para nos sentirmos grandes ou importantes, quando na verdade os grandes e os importantes de uma ocasião como esta são elas.
 
Elas que nos lembram todos os dias que o mundo é desigual;
Elas que nos mostram todos os dias que não há amor maior do que aquele que se tem pelos filhos, pela família, núcleo humano pelo qual se vai até ao limite na tentativa de o ver sempre acima da linha d’água.
Elas que nos ensinam como se reinventa todos os dias a arte de produzir riqueza, a riqueza que é sempre uma grandeza de relatividade absoluta, porque para uns os seis mil dólares para um vinho exclusivo são pinutts mas, para estas mulheres sacrificadas, os 200 kwanzas que são o ganho de um dia de zunga pelo asfalto e pela poeira valem uma fortuna que permite continuar a saga de ir vivendo um dia de cada vez.
 
Elas são as nossas heroínas que nos traduzem com o maior dos acertos o significado da honradez em todas as suas dimensões.
 
Foi há 15 anos que este projecto nasceu no seio da família Jornal de Angola. As conversas sempre sem agenda nem roteiro que fazem a rotina dos jornalistas em toda a parte foram desembocar na constatação inevitável: para a aventura da vida, nascemos todos iguais um dia mas o que define os nossos destinos são as oportunidades que depois a vida nos proporciona. Questionámo-nos no Jornal de Angola, de tanto ver da varanda e através das mil frestas das redondezas, com a Biker na linha da frente, as mulheres jovens e adultas que cruzavam pelo largo Julius Fucik, ao longo da rua Rainha Njinga, da Mutamba e de outros recantos da Baixa e da vasta Luanda, no processo de venda de frutas, água, bolinhos, material escolar e mil outras traquitanas, se não seriam beldades de maior brilho caso tivessem o dinheiro, as joias e os perfumes que transformam outras sortudas nas Sophia Lorens, Brigitte Bardots, Marylin Monroes, Mirian Makebas desta vida.
 
Da conversa nasceu o desafio. Vamos maquilhá-las, vamos cobri-las com vestidos vistosos, vamos perfuma-las com essências finas de Paris e verão que elas parecerão o que as dores e os odores da Zunga não permitem que sejam.
 
Foi assim que tudo começou e o estrondoso resultado daquelas conversas sossegadas entre jornalistas e zungueiras, oito apenas mas representativas do universo de Angola inteira, trouxe-nos a este momento de hoje quinze anos mais tarde.
 
Muita coisa mudou, a primeira delas: somos todos quinze anos menos novos, entrevistadores e entrevistadas. Os magricelas que éramos alguns de nós cederam ao ímpeto do colesterol e outras gorduras; as solteirinhas que subiam e desciam ao longo das avenidas são hoje mães que contam aos filhos que tiveram os caminhos de ontem.
 
Mas uma coisa permaneceu: o desejo de todos de continuarmos a ser dignos da vida, merecedores desta dádiva a um tempo mistério e outro, determinação pessoal, individual.
 
O que aconteceu a cada um dos protagonistas desta história em livro pode bem dar lugar a uma nova e substantiva narrativa, bastando que os nossos colegas no activo saibam espreitar as oportunidades do jornalismo das boas notícias. Estão aqui os que têm o dever e a ciência de continuarem o que iniciaram os agora veteranos que se afastaram das Redacções e dos cenários das notícias e reportagens.
 
Prometi ser breve e estou a tentar sê-lo. Mas há palavras que não podem deixar de ser ditas. Uma delas, talvez a última, a gratidão.
 
Este livro existe e com a qualidade gráfica que lhe reconhecemos porque pudemos contar com a generosidade dos amigos de boas causas. Serei mesmo menos parco nas palavras. Chamar-lhes-ei cidadãos patriotas, filhos honrados desta Angola e que compreenderam ao primeiro contacto que dar palco à mulher zungueira é exaltar o que de melhor pode haver em nós como nação, como país, como sociedade.
Pessoas que contam tiraram dos seus bolsos para homenagearem pessoas que contam. O nosso muito obrigado sob a forma de aplausos!
 
Finalmente um anúncio surpresa: a organização deste projecto, graças ao apoio financeiro generoso dos amigos que nos acompanharam nesta saga – a organização deste projecto, dizia, vai oferecer a quantia de 1 milhão de Kwanzas a cada uma das mulheres que fazem parte do nosso livro. Estão reservados oito milhões de Kwanzas ao todo para que as oito mulheres que um dia aceitaram abrir o seu coração e falar dos seus sonhos e andares por Luanda possam fazer avançar as suas vidas. Para isto vale o dinheiro, apenas para isto deveria valer: para o seu uso na estrita medida da sua necessidade: nem mais, nem menos…
Tenho dito!
 
Osvaldo
Editor da Platina Line

Noticia realacionada

Leia tambem