Encenador Tony Frampênio enaltece produção 100% angolana

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Importante nome do teatro angolano estará a frente do próximo Duetos N’Avenida

O director e encenador teatral Tony Frampênio abraça o projecto Duetos  N’Avenida que, para ele, é uma porta para o teatro angolano voltar à ribalta. Nessa entrevista ao jorna O País, ele exalta as artes e dá a medida da importância que têm na construção da cultura nacional. “As artes são ferramentas fundamentais, não só para a economia e projeção da imagem de quem somos, mas para a pacificação dos espíritos”, disse. A seguir, os principais trechos de uma conversa com o director da peça “Escrava na cama”, escrita por Marisa Júlio, com os actores Celma Pontes e Jaime Joaquim no elenco. O espectáculo está marcado para 10 de Outubro, na Casa das Artes, em mais uma edição do Duetos N’Avenida.

 

Como está vendo a cena teatral angolana na actualidade?

O teatro tem estado a se diversificar e a expandir as produções. Cada vez mais surgem entidades promotoras que apostam na disciplina teatral, tal como tem acontecido com as outras disciplinas artísticas. De alguma forma, isso dinamiza a actividade teatral e, certamente, mais cedo ou mais tarde, a qualidade estética surgirá ao mesmo nível. Apesar da existência da Faculdade de Artes da Universidade de Luanda e do Complexo Médio de Artes, há sensivelmente sete anos, reclama-se de uma maior atenção às artes, particularmente o teatro, por ser uma actividade peculiar e dependente da acção colectiva. Ainda não há salas que atendam à demanda de um universo de mais de 2.608 artistas,  integrados em mais de 200 grupos de teatro, só em Luanda. Precisamos de mais política orientadora, leis de incentivo, infraestrutura e concursos, dentre outros estímulos. O que existe é a vontade dos “fazedores de teatro”. Daí eu muitas vezes ter dito que o nosso teatro é o “Teatro da Tarimba”, título da última obra literária que versa a problemática do teatro angolano.

 

Quais os entraves e quais os avanços nesse cenário?

Avançou-se com o quesito formação. Existem escolas médias e superior. Louva-se este facto. Mas estes formandos, e eu sou prova dada, tão logo se formem, aonde vão? De volta para casa? Criar projectos? Dar aulas? Qual o perfil de saída? Certamente, quando se criaram as escolas de artes, havia um objectivo claro. Formar quadros nestas áreas para dar resposta a problemas artísticos-culturais do país. Entretanto, não é isso que se tem verificado. Os fazedores do teatro em Angola trabalham apenas para saciar o ego. Não existem objectivos claros que expressem a importância das artes no país, do teatro enquanto veículo de tradução das culturas das sociedade, educação e lazer. Para tal, necessita-se de políticas que tornem a cultura e a educação como elementos biunívocos para a manutenção das sensibilidades de humanidade e identidade do povo angolano. As artes são ferramentas fundamentais, não só para a economia e projeção da imagem de quem somos, mas para a pacificação dos espíritos. Olhemos a arrogância que existe entre as pessoas da nossa sociedade. Vejamos como os vizinhos já não se conhecem. Os professores mal conhecem os seus alunos. Os familiares estão cada vez mais distantes, enfim. Não será a política, muito menos a economia que resolverá este dilema de humanidade. A história nos diz que as artes sempre estiveram na vanguarda daquilo que o homem veio a chamar de civilização, sociedade, cultura

 

A formação de actores têm dado alguns passos significativos em Angola?

Com certeza que sim. Eu sou fruto da formação artística em Angola. Fiz parte do primeiro grupo de formados em arte, depois de 45 anos da Angola independente. Hoje, sou docente da mesma faculdade onde me formei. Isto é um ganho visível. Mas, acima de tudo, é pauta deontológica que se começa a construir devido à formação académica. Quem passa pela escola tem outro entendimento e respeito pela actividade que desempenha. Hoje, um artista tem o mesmo estatuto intelectual que um engenheiro de petróleos, mas falta colocá-lo ao mesmo nível de renda salarial. Em outras paragens do mundo, a cultura contribui mais do que qualquer mineral contribui para o PIB. Em Angola, ainda ensina-se que as artes não geram renda e não contribuem para a economia, o que é um engano. Com a formação, é possível perceber isso. Com ela, ganha-se cada vez mais artistas e públicos a lutarem pela causa da arte de facto. A formação trouxe outro nível estético às obras de teatro. Há mais respeito para com os artistas. Afinal teatro também estuda-se! Exclamam, quando vêem os nossos diplomas e excelência em nossas obras. Nada se pode comparar à formação. Educação é tudo.

 

O que mais te atraiu a aceitar o desafio de participar do próximo Duetos N’Avenida e com um texto da autora Marisa Júlio?

Eu gosto de desafios. Numa altura que o teatro precisa de afirmar, não podia deixar esta oportunidade para justificar aquilo a que temos reclamado. A falta de apoio ao teatro. Um projecto como este certamente colocará o teatro na ribalta. Aproximará o teatro à uma classe que nem sempre tem acesso ao teatro que se faz no país. É uma oportunidade para dar a conhecer quem somos, do que somos capazes e porque devem nos apoiar. Até 2010, mais ou menos isso, um evento destes seria feito com um encenador estrangeiro. Se se começa a chamar angolanos já é um sinal positivo. Texto de uma angolana, a Marisa Júlio, actores angolanos, a dupla Celma Pontes e Jaime Joaquim, encenador angolano, Tony Frampênio e produção angolana. É algo que deve ser enaltecido.

 

Como está a ser a participação no projecto Duetos N’Avenida?

Desafiadora. O projecto Duetos N’Avenida aposta pela primeira vez no teatro, sendo esta uma grande oportunidade que temos para mostrar que merecemos este casamento. Cada um está a fazer a sua parte com muito profissionalismo. Vamos esperar que o público ame o nosso trabalho e peça que o teatro se mantenha com o Duetos N’Avenida.

 

 

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