Entrevista exclusiva Hochi Fu

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Chama-se Ho-chi-min Gourgel Martins, natural de Luanda, onde nasceu em 1977 no bairro do Alvalade no dia 12 de Março. Filho de António Martins e Vitória do Amaral Gourgel Martins. Hochi é divorciado, pai de três filhos. Nos próximos meses apresentará no mercado o grupo “Pesos Pesados”, em que o mesmo faz parte com mais dois elementos: I.V.M, vocalista e produtor e Player, também vocalista.

Nota: por incompatiblidade de agendas ele não conseguiu responder a nossas questões  e nos enviou a Presente  entrevista com exclusividade feita por Sebastião Vemba e publicada no Semanário Novo Jornal

 

 

É responsável por mais de uma centena de vídeos musicais entre nacionais e internacionais, mas actualmente pensa dedicar-se apenas a produção filmes. “A minha meta é Hollywood”, diz Hochi-Fu.

 

Porquê quer deixar de fazer vídeos para se dedicar a produção de filmes?

 

Acho que todos temos aspirações, e eu obviamente que quero sempre e sempre crescer. Os vídeos foram o princípio, mas a minha meta é Hollywood e acredito que depois da experiência que tive com mais de 120 vídeos, nada melhor do que passar para a produção cinematográfica.

 

 

As pessoas que o acompanham desde o início da sua carreira na Holanda, quando voltam ao país geralmente tendem a não acreditar que você se encontra a este nível de evolução. Que transformações ocorreram entre o Hochi-Fu do início da carreira e o Hochi-Fu de hoje?

 

O primeiro tinha pouquíssimos vídeos no mercado, enquanto que o segundo tem vídeos com reconhecimento no mercado internacional. Há pouca gente a fazer esse tipo de trabalho, e no seio dos artistas tenho sido uma primeira opção, o que me torna mais conhecido no seio da mídia.

 

 

Mas quais foram as condições técnicas em que começou?

 

A aparelhagem que eu tinha era toda amadora, daí que fazia as coisas sem fins lucrativos. Eu produzia apenas vídeos internos, meus e dos meus amigos, e o pessoal dizia que eu tinha talento. Pronto, inscrevi-me na escola de artes de onde busquei algumas técnicas para aprimorar a minha actividade. Já em Angola, comecei a pedir emprego, mas as portas não se abriam assim com facilidade e decidi eu próprio abrir a minha empresa. As coisas foram muito difíceis. Vê que a minha primeira aparelhagem foi um “laptop”, uma máquina de filmagem amadora e o escritório era o meu carro. Um dos primeiros clientes a acreditar em mim mesmo nessas condições foi o Big Nelo.

 

Qual foi o trabalho?

 

Foi o vídeo “Quem será?”

 

Essa crença no seu trabalho foi em função da amizade que tinham?

 

Acho que não. Foi em função das coisas que eu lhe mostrava. Por exemplo, eu fiz a capa do CD dele “Momentos”, o meu primeiro trabalho em Angola, e depois surgiu o Jeff Brown. Eles receberam muitos elogios pelas capas e o “Big” decidiu fazer comigo o vídeo, numa altura em que eu estava a montar o minha equipa de trabalho com o Nelson Mangueira, que foi o produtor, eu o realizador e director e o Ecumbi Pizarro o editor. Este foi um vídeo de baixo custo e rendi apenas 150, 00 dólares americanos, o que quer dizer que eu não vim de cima como muitos tenha insinuar. O trabalho teve bons resultados, o vídeo passou pela MTV e outros canais internacionais. A projecção foi tanta que outros músicos não hesitaram em me contactar.

Quais foram os outros trabalhos?

 

O vídeo “Deixa estar” da Yola Araújo e o “Super-homem” de Anselmo Ralph que acabava de sair com o seu primeiro álbum. Para dizer que com o vídeo da Yola fui representar Angola na categoria de melhor realização e melhor cantora nos Awards da Channel O. Não conseguimos o primeiro lugar, mas para mim a participação em si foi salutar para minha carreira, porque não é fácil ficar entre os cinco melhores realizadores de África com apenas três vídeos no mercado. No entanto, o trabalho que mais me lançou no mercado foi o “Comboio” dos Lambas. Eu estava a investir nesse grupo, daí o esforço empreendido na produção e realização. O vídeo esteve em todos os top africanos de audiovisual. Há coisa de um mês, amigos meus nos Estados Unidos ligaram a dizer que o Kenny West falava deste clipe e de mim como realizador num programa de televisão.


“Sempre desenhei mais do que falei”

Quando nasce a sua paixão pelos audiovisuais?

 

Desde pequeno que gosto de desenhar. Para os que foram meus colegas ou conviveram comigo sabem que sempre desenhei mais do que falei, desenhei mais do que escrevi. Lembro que desde pequeno, quando despertasse de um sonho logo corria pegar no lápis e no papel para desenhar. Mas os meus pais nunca me incentivaram a dar continuidade a esta paixão. Diziam que a arte só rende depois de estarmos mortos e davam-me exemplo de vários artistas plásticos e músicos com Picasso e Bob Marley que passaram por situação idêntica.

 

Então foi a Holanda para estudar ou fugiu a guerra que havia em Angola?

 

Eu não fui para estudar nem saí por causa da guerra. Eu fugi de um colégio em Portugal após uma briga que tive com o meu pai. Quis depender de mim mesmo.

 

E o que estudava neste colégio?

 

Estava fazer ciências exactas e decidi por mim mesmo ir para Holanda e tentar a vida sozinho. A primeira coisa que me fez abandonar o colégio é que jogava basquetebol e era treinador dos juvenis e iniciados e a segunda é que acaba de ter o meu primeiro filho e ficava chocado com as condições da escola. Os baloiços no pátio irritavam-me porque aquilo já não era para homens grandes como eu.

 

Como conciliava as tarefas de estudante, basquetebolista, treinador desportivo e organizador de festas?

 

Era fácil. Para mim tudo é arte. Eu gostava de praticar desporto, quanto a música, eu cresci no seio de músicos como Beto Gourgel, o próprio meu pai era coleccionador de música, tive primos DJ’s, e então acabei recebendo todas essas influências. As festas eram mais aos fins-de-semana, e a música eu fazia quase todos os dias. Passo mais tempo a escrever do que a ler, aliás raramente vejo televisão.

 

É nesta altura que surge o projecto “Maskarado”?

 

Um pouco depois. Este projecto surgiu depois do “Kuduro” sobressair em Angola. Fiz o LusoDance 4, um projecto do Gil Semedo em que a Yola Semedo participou. Compus uma música para este disco e correu bem. O pessoal gostou e fizeram-me uma proposta de produzir alguns kuduros porque não se acham aptos para tal. Eu disse que era “rapper” mas que podia fazer alguma coisa. Como não quis dar a minha cara como kudurista, surgiu-me então a ideia de passar a usar uma máscara. O Hochi-Fu é rapper, mas o Maskarado é kudurista.

 

 

E hoje quem desempenha esse personagem é outra pessoa?

 

Exacto. Apareceu-me um jovem que tinha o nome de “Fr” ou “Ferro”, e eu disse-lhe que tinha esse projecto com alguma projecção na Europa. Ele aceitou e transferi-lhe então o personagem. Hoje ele trabalha comigo há três anos.

 

Porque é que voltou a Angola?

 

Tive alguns problemas de gang, mas, o que de facto me trouxe de volta a país foi o falecimento do meu pai. Primeiro faleceu o meu tio. Eu vim ao seu óbito dele, mas encontro o meu pai doente, que acabou por morrer também duas semanas depois.

Decidi permanecer aqui e ver o podia fazer. Sempre soube que não iria viver fora para sempre, mas acabei vindo mais cedo do que esperava. Não acabei os estudos, no entanto não me arrependo de nada. Actualmente estou a dar sequência on-line.

 

“O músico é um actor em potência”

 

Recentemente fez um desafio através deste jornal, de que o seu filme viria revolucionar o novo cinema angolano. Como anda a produção?

 

Estamos a produzi-lo sem a mínima pressa. Aprendi muito com os filmes que estão a sair agora. A partir deles foi possível saber o que eu não posso fazer para não cometer os mesmos erros. O meu objectivo é evitar trazer um filme prematuro. Por exemplo, para a nossa realidade, acho que no mínimo um filme devia durar nove meses a um ano. Não estou a procura de dinheiro, sim da revolução do cinema angolano.

 

 

Porquê seleccionou apenas músicos ou pessoas que directa ou directamente estão ligadas a esta arte para o elenco de actores?

 

A intenção é mesmo esta, a de revolucionar a realidade. Pessoalmente entendo que todo músico é um artista, ou para ser mais específico, um actor em potência, cujo talento se desenvolve a medida que ele interpreta as suas letras. Os músicos que já trabalharam comigo em vídeos sabem que exijo que eles interpretem as suas letras e entrem no espírito daquilo que cantam. É necessário que eles sintam o que cantam e, quanto ao filme, foi este o meu objectivo, tentar uma nova vaga de actores e projectar o pessoal para um outro mundo, para além de o filme se tornar mais atraente com a presença desses novos actores já conhecidos no “music hall” angolano e divulgar mais ainda a sua imagem, dai que muitos aguardam lançar os seus álbuns após a estreia do filme.

 

E porquê decidiu pagar os seus actores com “videoclips”. Chega a ser menos dispendioso si?

 

Bem, em primeiro lugar eu acho que os actores devem ser pagos. Segundo, eu investi muito dinheiro neste filme e devo ter algum lucro no final, mas os actores também têm que ganhar com isso, para além da fama e promoção que terão. Então, em vez de usarmos o dinheiro, houve um acordo entre mim e eles em fazermos troca de serviço. Eles participam no filme e nós ofereço o vídeo. Mas, se os pagasse em dinheiro, todos sabemos que o valor seria inferior ao preço de um vídeo, porque em Angola ainda não se ganha muito… saímos todos felizes fazendo assim as coisas.

 

O Paulo Cabonda aparece como um dos personagens principais deste filme. O seu disco sempre sai pela Power House?

 

Não. Recentemente houve algumas contradições entre mim e o Paulo, e ele próprio decidiu não fazer parte dessa organização. Mas ele continua no filme; só terei de usar algumas técnicas para diminuir a sua actividade, senão o final do filme fica prejudicado. Ele permanece no filme, mas não será mais eu a editar o seu álbum e a trilha sonora dele terá de dar espaço a outros músicos da Power House e não só, como a Sílvia Freitas, o Maskarado, cujo álbum está previsto para este ano logo após o filme, os Pesos Pesados, os Supremos, o Papetchulo, a Djamila Delves e muitos outros.

 

Ainda sobre contradições, o houve entre si e os Lambas?

 

Bem, a nossa ruptura foi logo após o lançamento do primeiro álbum deles porque eles venderam o show sem o meu conhecimento nem consentimento. Eu quis fazer do show rapazes um dos melhores que já existiram em Angola. Pela projecção que tinham no mercado, os rapazes mereciam um show melhor do que o que tiveram. O evento seria produzido por mim e pelo Yuri da Cunha, mas algumas pessoas foram ter com os miúdos às nossas costas quando já estávamos a assinar contratos e a negociar com os convidados, que seriam na sua maioria músicos de outros estilos musicais. Os Lambas seriam os únicos kuduristas no espectáculo.

 

E como anda a sua carreira musical?

 

Agora estou a trabalhar com mais garra. Tenho um estúdio de áudio e às vezes paro de trabalhar para gravar alguns versos que vêm à mente e depois volto ao trabalho. Mas também faço isso porque para ensinar alguém a conduzir temos que primeiro estar nós mesmos no volante. Eu gosto de pegar músicos sem muito peso mercado torná-los em super-estrelas. Acho que esta é uma das minhas missões aqui na terra. Muita gente diz-me que investi dinheiro em vão com o Paulo Cabonda porque rompemos o contrato, mas eu acredito mas é que valeu alguma coisa. Se o Paulo hoje tem o nome que tem é porque alguém fez alguma coisa e isso já me deixa feliz. O mesmo acontece com os Lambas.

 

Há quem diga que é uma pessoa muito americanizada, principalmente quando aparece como músico. O que acha?

 

Aceito porque tive muitas influências americanas. Aliás, todos os “rappers” são americanizados. Uns adoptam o estilo de música, uns as ideias, e eu simplesmente tento fazer o melhor e se o melhor vem da América, então é isso que farei.

 

Como artista que é não devia cria um estilo próprio, quer na apresentação quer na música como tal?

 

Quanto à música, o “rap” já anda criado há décadas e os cantores têm uma forma própria de apresentação, mas quanto ao estilo, se hoje existe um estilo que chamam “rap-kuduro” fui eu quem criou. Perguntem ao JD quem o apresentou ao Bruno Me verão até onde chega a minha criatividade em termos musicais. Por outro lado, brevemente sairá o álbum do Maskarado, com um kuduro virado para o futuro. Eu próprio não misturo as coisas porque faço hip-hop desde os meus 12 anos e acho que me basta.

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