Grande Entrevista Unitel: com Eduardo Paim O “General Kambuengo”

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Conhecido como general Kambuengo, Eduardo Paim é acima de tudo um músico que não só teve uma grande influência no nosso circuito musical da década dos 80 como tem às suas músicas consumidas até hoje. O que vem a propósito quebrar a ideia de que a música é um dos principais responsáveis choque entre gerações. Consta das suas conquistas (como cantor) três discos de Ouro e um de prata, e como produtor tem uma vasta lista de nomes que ajudou a colocar no mercado. Numa entrevista curta e descontraída  com Mila Stéphanie dos Jovens da banda, (www.jovensdabanda.platinaline.com)   ele falou-nos das suas conquistas, seus projectos actuais e seu parecer acerca do mundo musical nos dias de hoje. Bom Ano de 2012 

 

 


 

MSM- Muitos deram-lhe o título de «Sua Majestade» pois acreditam ser o Pai (fundador) da kizomba. Como reage quando é tratado assim?

 

Ser alvo deste reconhecimento é um incentivo e uma recompensa grande para mim. Quando comecei com isso nunca pensei que poderia evoluir até tal ponto. Que isso podesse inclusivamente, ultrapassar fronteiras e ser hoje o facto que é. Porque o que eu criei sem ter tido a intenção, cresceu e hoje ganha espaço por todo mundo. É bom ser o «pai» disso. Eu sinto orgulho por ter dado um contributo para que a kizomba hoje se tornasse no que é…

 

MSM-Quais foram os estilos musicais que influenciaram o surgimento da kizomba?

 

Na verdade uma coisa sempre tem ligação com a outra.A kizomba é uma mistura da nossa própria essência musical,o Semba e o Merengue que na altura se fazia muito não só em Angola mas também em várias outras partes do mundo. A Kizomba também vem das antilhas que é hoje chamado zouk, e este entrosamento continua porque a kizomba também tornou-se responsável pelo surgimento de outras tendências musicas actuais como por exemplo o kuduro.

 

MSM – Muitos afirmam que a kizomba é um género musical «kaluanda». Até que ponto isso é verdade?

 

Sim, é obvio que o estilo kizomba parte de Luanda e de nomes como Eduardo Paim, Paulo Flores, Ruka Van-duném, mesmo admitindo às influências vindas do Congo Democrático, República do Congo e do Equador de África. Isso até pelo nome já diz tudo, Kizomba no dialecto do Norte de Angola, (kimbundo) significa “festa/convívio”.

 

MMS – Como tem reagido às mudanças que este estilo tem sofrido, afastando-se cada vez mais do que se fazia antigamente? Se tivesse que dar uma nota de um a dez que nota daria a kizomba actual e porquê?

 

Como tudo na vida, há sempre uma dinâmica, há certas alturas em que tudo que fazes sai bem e aquelas alturas que és menos feliz, não vou dizer infeliz mas menos feliz. A kizomba de hoje tem que ser vista por duas vertentes. Há aqueles que evoluíram da melhor forma possível baseados talvez naqueles que são bons alicerces e há também aquela kizomba que é descartável. Mas num canto Global ou Geral eu daria a pontuaçao de oito e meio. Porque, dos que estão a fazer bem e os que estão a fazer menos bem, (pois não estou capacitado para dizer que estejam a fazer mal) os que fazem bem ainda são a maioria.

 

MSM – É também conhecido como “General Kambuengo” e poucos sabem o verdadeiro signicado. Aliás ouve-se até dizer que significa teimoso. Gostaria de saber de si qual é a origem do nome e o seu verdadeiro significado?

 

Não, não significa teimoso. A palavra kambuengo, se formos a falar no contexto da origem, é uma povoação da província do Huambo. Agora o significado, nada tem a vêr com teimoso ou algo do género. É apenas um nome, como se fosse eu perguntar o que quer dizer “Mila Stéphanie”. Agora se a minha avó ainda fosse viva, talvez podesse esclarecer o porquê ela deu-me este nome. Mas Contudo, foi o nome que ela me deu e eu gosto.

 

MSM- Qual foi o pior momento da carreira de Eduardo Paim e como superou?

 

Isso também é algo que temos que vêr pelo menos em duas vertentes…Tive alqueles momentos de dificuldades naturais, por exemplo: Chegar à Portugal, sem qualquer apoio, sem qualquer orientação por parte de alguma estrutura ou de alguma entidade e ter que fazer a vida sozinho «ter que tentar a sorte».

 

Por outro lado quando se é alvo do público, estamos vuneráveis há certas coisas não boas. Realmente há muitos anos atrás, mais ou menos há uma década e meia, terei passado por um momento que até não gosto de recordar. Mas, como se trata de uma realidade que aconteceu na minha vida eu falo disso sem qualquer problema e sem qualquer receio. Eu fui de facto, há uma determinada altura alvo de uma calúnia muito forte, relacionavam o meu nome com práticas condenadas pela sociedade, como por exemplo: o tráfico de drogas. Obviamente isso nunca aconteceu, Deus sabe que o que estou a dizer é verdade. Eu não preciso nem de ajoelhar nem de jurar, acredita quem quiser, quem não quiser não acredite. Foi uma fase realmente complicada para mim sendo que quando comecei a lidar com os reflexos negativos desta calúnia, não posso dizer que tenha reagido bem. Profissões que dependem sobretudo de uma boa imagem uma mentira como esta resulta em perca de trabalho e de oportunidades. Este foi com certeza um dos momentos mais difíceis da minha carreira.

Eduardo Paim e Jacob dos Kassav

MSM- Eduardo Paim não tem um álbum no mercado há quase 5 anos e o público quer saber porquê ficou tanto tempo afastado dos palcos?

 

Mantive-me um pouco afastado dos palcos por vontade própria mas nunca estive afastado da música. Tenho respondido várias vezes esta pergunta,vários são os casos que às pessoas conhecem. Provavelmente desconheçam que por detrás de um determinado nome que aparece existem outras pessoas. Produzir,também é algo que eu gosto de fazer. Embora a produção, criação e toda está parte que exija que fiquemos nos bastidores a uma determinada altura reduz a comunicação com às pessoas. Tenho de facto agendado novos projectos. A partida dentro de um mês, um mês e meio já começo a trazer ao público algumas coisas que fui preparando ao longo deste tempo que às pessoas acabaram por não me vêr.Não estive parado, obviamente isto é como tudo a gente só para quando parar de respirar.

 

(Eduardo Paim e monsieur Jacob Desvarieux no estúdio, preparando o novo CD)

 

MSM – Já que tem agendado um novo projecto dicográfico para breve, este CD será  o seu «best of» (coleção das suas melhores músicas) ou é composto por novos trabalhos?

 

Preparei um trabalho composto de 30 músicas sendo estas 30 músicas o somatório daquilo que mais se ouviu de Eduardo Paim e que mais marcou às pessoas. Também já estou a somar cerca de 30 anos nesta estrada, acho que é muito. Preciso fazer algo que possa de facto orgulhar os que me dão orgulho de ser aquilo que sou.”Um artista sem público é um artista sem continuação e eu tenho a sorte e a felicidade de não me sentir um artista isolado”

Tanto tenho admirados colegas como público. Isso é óptimo, acho que é chegado o momento de fazermos um brinde com sabor a música.

 

MSM – Como produtor, qual foi o envolvimento de Eduardo Paim com relação ao surgimento de outros Grandes Nomes como Paulo Flores?

 

O Paulo Flores foi um artista que começou extremamente cedo. Eu conheci o Paulo Flores quando ele tinha 16 anos e trazia um projecto discográfico com músicas extremamente sérias, extremamente capazes com posições que mereceram logo à partida a vênia do público mesmo com a idade que tinha. Obviamente que como mais velho (e aliás neste aspecto até comecei mais cedo que ele) terei sido talvez um dos degraus que poderão ter apoiado ou servido de base para o aparecimento público de Paulo Flores. É obvio que terei de algum modo servido para que este grande nome pudesse também atingir esta dimensão que tem, mas Atenção:

 

“PAULO FLORES PARA TODOS OS EFEITOS É UM COMPOSITOR DE MÃO CHEIA, É UM CANTOR DE MÃO CHEIA com características muito próprias, muito pessoais. Portanto é um artista com capacidades para singrar em qualquer parte do mundo com ou sem Eduardo Paim.”

 

MSM – Que outros nomes Eduardo Paim ajudou a colocar no mercado musical Angolano?

 

Ajudar ajudamo-nos todos. Agora este cruzamento esta intercessão é necessaria porque vamos aprendendo uns com os outros. Se calhar na altura por ser já detentor de alguma experiência, poderei ter sido um fulcro importante para o aparecimento de muitos artistas. Se formos a começar mesmo lá do fundo diria que ainda devo ser o produtor que mais nomes colocou no mercado… Maya Cool, João Assuncão, Jacinto Tchipa, Paulo Fores, Banda Maravilha etc. Para mim isto é uma permuta. Dou algo mas também recebo algo em troca. Aquilo que é o convívio que vamos tendo entre nós, sempre se processa desta forma.

 

 

MSM – Actualmente a febre juvenil é o kuduro que na altura que começou foi bastante discriminado pela sociedade por razões ligadas à marginalidade. Gostaria de saber se também teve obstáculos semelhantes quando começou com a Kizomba?

 

Não, não! Uma coisa não tem nada a vêr com a outra. Primeiro porque os níveis que se poderiam sublinhar no meu tempo, nada têm a vêr com aquilo que se vê hoje. Há coisas que hoje se processam mas que é responsabilidade deste tempo de hoje.. Às nossas responsabilidades naquele tempo eram outras. Repare que se hoje a marginalidade e o kuduro se enquadram por algum motivo isto deve ser e alguém tem que dizer o porquê. Isso é um assunto que eu não vou discutir mas às pessoas com competência para tal que o façam.

 

MSM – Falou da influência da kizomba na criação de outras tendências musicais inclusive o Kuduro, como aconteceu este processo?

 

O kuduro parte de um estilo musical que na altura nós chamavamos de «Na-Gibo», e que também parte do trabalho que naquele tempo eu fazia. O «Na-Gibo» que mais tarde deu origem ao kuduro não era nada mais e nada menos do que uma kizomba bastante acelerada. E aquela aceleração dava aquele «beat» forte, extremamente contagiante que quase não valia a pena tocar instrumentos harmônicos. Tudo no intuito de animar às pessoas, pois por ser tão rápida, aquela sequência rítmica quase desfaz a parte harmônica. O que resultava é que punhamos em cima o que hoje os jovens chamam de «bifes», quando na verdade só gozamos uns com os outros…“waba waba, para cima, para baixo, de lado já esta bom”. Nós não tinhamos sequer argumentos para «bifar». Os nossos «bifes» eram coisas muito mais alegres, por exemplo: «se o fulano escorregou no salão e apanhou uma queda», isso sim eram motivos para animar às músicas

 

.“Hoje já se vê uma grande presença da obsenidade,na música. Eu acho que fica o apelo, devem usar este instrumento tão bom que é a música para passar mensagens positivas”.

 

MSM – No seu último álbum quebrou uma barreira cultural quando convidou o Negro-Bué para participar. Sendo assim será que desta vez podemos esperar algo mais ousado como por exemplo uma mistura de Kizomba, Rap e kuduro?

 

Apesar de ser um dos responsáveis pelo aparecimento deste género musical, não é um estilo que me identifique, pode me identificar em termos de história mas não é esse o meu forte. O que posso adiantar é o seguinte: terão algo nesta velocidade mas não é kuduro. Porque nós temos determinados estilos rítmicos na nossa terra que se assemelham ao kuduro, por exemplo: a Kabetula é um estilo musical que se processa na velocidade do kuduro mas, se eu baixar a velocidade do kuduro deixa de ser kuduro. O semba, também pode ser levado a velocidade do kuduro mas o kuduro não pode descer a mesma velocidade do semba. Vai haver realmente este «beat» no meu CD mas não é kuduro, quando vocês ouvirem vão poder notar.

 

 

 

MSMDiz ser um dos responsáveis pelo aparecimento do kuduro e uma vez que não faz kuduro como bem mencionou, como surge este cruzamento?

 

Por mais que às pessoas não queiram aceitar mas foi assim que aconteceu: -Eu num espetáculo, com uma máquina chamada bateria electrónica , (que era um pequeno dispositivo que podia formar sons de percurssão para dar uma batida) precisava trocar de batida e ir a uma batida que estaria na memória 140, só que esqueci-me de desativar o botão do tempo e ao invés de pôr o patern 140 eu coloquei a velocidade 140. A verdade é que às pessoas levantaram e foram dançar. Eu não pude parar a máquina, daí que parte a história de começar a cantar em cima como uma forma de cortar aquela batida. Quando tentei parar às pessoas todas do salão começaram a vaiar. Isso deu origem ao género musical que na altura chamavamos «Na-Gibo»  que daí terá entusiasmado outros nomes como, Bruno de Castro e posteriormente Sebém e Toni Amado.

Eduardo paim e Papa Wemba 

 

 

MSM- Como se prepara para entrar em palco e enfrentar centenas e por vezes milhares de pessoas ?

 

Para mim é algo extremamente normal, considero-me uma pessoa simples, faço o que todo mundo consegue fazer. Realmente enfrentar o público não é fácil até porque o público nunca é o mesmo. Algo que nunca pode faltar é fé espiritual. É natural que antes de qualquer aparição, seja esta de grande ou pequena proporção eu tenha uma conversa com o meu lado espiritual. Peço para que Deus me dê forças para enfrentar qualquer dificuldade que possa surgir. Não faço uso de estimulantes de nenhuma espécie. O meu estimulante é um coração leve, sem mágoas nem rancor, o resto é na hora.

 

MSM-O que seria Eduardo Paim se não fosse músico?

 

Se não fosse músico, talvez seria arquitecto ou engenheiro mecânico.

 

MSMPara terminar, quem é o cantor da nova geração que Eduardo Paim muito admira e porquê?

 

Para mim é difícil responder esta questão porque eu procuro vários atributos num artista. O que acontece é que quando encontro uma determinada qualidade em um artista já sou capaz de encontrar outra característica noutro. Portanto custa-me dizer que este é o melhor de todos. «Gosto de Angola», tenho as minhas preferências mas prefiro não evidencia-las por enquanto.

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