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    A "veia" literária de Gersy Pegado

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    Quando entrevistei Gersy Pegado, num dos programas “Vozes do Semba” – série da Televisão Pública de Angola, que aborda a biografia artística dos cantores e grupos musicais angolanos – fiquei logo com a impressão que estava perante uma jovem, talentosa e eloquente, com pertinentes preocupações de índole filosófica e intelectual. 


    A forma estruturada, pertinente e escorreita, como, no seu perspicaz e marcante depoimento, fez uma histórica narração, com descrições pormenorizadas, sobre a génese e a sua visão histórica das Gingas, denotava uma possibilidade, real, da cantora poder registar, em livro, as impressões memorizadas para a posteridade.


    A leitura dos relatos das viagens e factos vividos, reunidos em “Gingas na minha retina”, fizeram-me lembrar, de forma automática, esta nostálgica entrevista, ocasionada por um encontro de natureza profissional, que acabou por revelar aspectos inéditos do percurso das Gingas do Maculusso.


    Tal como as nobres famílias musicais Duia, em Luanda, e os Semedo, em Benguela, a obra das Gingas – que constitui importante legado e celebração da mulher angolana, no domínio da música – é o resultado de um caso paradigmático de ensino artístico, de características intra familiares, pedagógica e sabiamente orientado pela professora Rosa Ermelinda Roque Pegado, mãe da cantora, eminente entusiasta e mulher de cultura.  


    Neste livro, a história do grupo e dos episódios das mais importantes digressões, relatados numa espécie de sucessão fílmica de ocorrências, surge como pretexto para contemplarmos os encantos de Angola, a sua natureza, num ritmo crescente de escrita, que nos faz revisitar um glorioso percurso, ainda em aberto, da carreira das Gingas.

    O mérito do livro

    Em “Gingas na minha retina”, Gersy Pegado aborda, de forma visionária e perspicaz, questões ligadas à teorização da arte e às contradições do mercado musical angolano e sustenta uma reflexão sobre a qualidade musical que, injustamente, está fora do êxito comercial e das grandes promoções na média. 
    “Gingas na minha retina” é, de igual modo, um testemunho de época e ganha pela sua magnitude histórica e simbólica, pelo facto de ser o primeiro livro, escrito por uma cantora angolana, que aborda as experiências de uma artista, enquanto integrante de um grupo musical, ou seja, numa visão retrospectiva não existe, na história da Música Popular Angolana, algo do género, com o qual se possa estabelecer aproximação ou semelhança comparativa.
    Embora focalize, em particular, aspectos circunscritos à vida das Gingas, este livro prestigia e vai ser, do ponto de vista prospectivo, uma referência, incontornável, de um segmento importante da história da Música Popular Angolana.

    O percurso

    Passaram-se cerca de 30 anos, dos longínquos tempos da “Mangonha” e do “xixi na cama”, e hoje a Gersy Pegado revela, neste livro, o alcance simbólico da sua jovem e crescente maturidade intelectual.
    Tudo começou com o Duo Gercy Pegado e Ruzena Galiano, duas primas inseparáveis, que a professora Rosa Roque foi observando, com apenas três anos, o desenvolvimento do timbre vocal e a propensão natural para a música.


    O grupo definitivo, que ia constituir a primeira formação das “Gingas do Maculusso”, sem a Ruzena Galiano, que acompanhou os pais numa missão diplomática, aparece quando a professora Rosa Roque integra, como funcionária, os quadros da Secretaria de Estado da Cultura.

     
    As meninas que fizeram a história das Gingas, na sua primeira formação: Paula Daniela, Josina Stela, Celma e a Anicete, a última já falecida, dinamizaram, um trabalho, a partir de  1982, que veio a transformar e dar novo impacto ao panorama musical angolano, uma verdadeira revolução da arte, no feminino, numa linha de continuidade do trabalho iniciado por Lourdes Van-Dúnem, Belita Palma, Conceição Legot, Lilly Tchiumba, Dina Santos, Garda e seu conjunto, Alba Clington, Celita Santos, Milá Melo, Tchinina, Sara Chaves e Conchita de Mascarenhas, vozes que marcaram a história da Música Popular Angolana.
    A estrutura da secção vocal do grupo, sobretudo no seu período áureo, impacto da dança, teatralização, coreografias e postura em palco, aliado ao carácter, endógeno, das letras e do ambiente poético que as canções instauram na nossa memória colectiva – um inequívoco contributo artístico da professora Rosa Roque, enquanto compositora – são atributos que fazem das Gingas uma formação única, na história do canto angolano, concretizada na marca deixada pelas mulheres cantoras.


    A professora Rosa Roque projectou, nas Gingas, enquanto personalidade de grande mérito e magnitude cultural, as suas experiências e a visão distante e poética da sua cultura de origem, em Malange. Compositora de múltiplos recursos criativos, Rosa Roque denota um conhecimento profundo da língua e da cultura kimbundu, tendo iniciado o trabalho de orientação pedagógica das Gingas, em 1982, num dos programas infantis da Rádio Nacional de Angola, tendo tido, nessa altura, o grande incentivo da conhecida jornalista Amélia Mendes.


    Um dos grandes méritos das Gingas, a par de outros não menores, foi a assunção e a absorção de uma cultura musical, em kimbundo, que acabou por conviver, de forma pacífica, com os gostos musicais característicos de uma geração jovem, normalmente vinculada à música anglo-saxónica e norte-americana. Actualmente o grupo é constituído por Gersy Pegado, Maria João e Erica Castro.

    Impacto da dança

    Aliada à música, a dança tem sido uma componente de suma importância na apresentação e teatralização das Gingas em palco, sobretudo quando o género é o ritmo dançante e frenético do semba.
    Embora Gersy Pegado tenha uma notável inclinação e colaboração na criação dos passos coreográficos que fizeram história no percurso artístico do grupo, a actualização da dança atinge o seu ponto alto nos ensinamentos da professora Rosa Roque, a sua principal mentora.


    Quando a criação coreográfica solicita aspectos de interpretação mais tradicionais, a colaboração dos grupos Yaka e Kilandukilu, têm sido os dois recursos mais solicitados.
    A ideia de introduzir a dança na Gingas, foi inspirada na estratégia coreográfica, celebrizada pelos grupos SSP e N’Sex Love, formações que entendem o fenómeno da dança, como elemento de impacto, complementar à música.

    Discografia

    O sucesso do CD “Mbanza Luanda”, inaugura a produção discográfica das Gingas, em 1996, seguindo-se, “Malanje-Natureza e Ritmos” (1997), “Xiyami” (1999), o último disco com a Patrícia Faria,  “Muenhu” (2004), com participação especial de Lokua Kanza, e Luachimo (2008), o último CD, com Gersy Pegado, Maria João, nas vozes principais, e a “Banda Semba Masters”, mas sem Josina Stella e Celma Miguel. Em Maio de 2005, as Gingas realizaram, no cine Karl Marx, em Luanda, um concerto de promoção do CD “Muenhu”, que teve participações especiais de Armanda Cunha, Pedro Nzaji, Ivete Galiano e do cantor e compositor Carlos Lamartine, como convidados. 

     


    O CD “Muenhu” é um contributo à internacionalização efectiva das Gingas, consubstanciada na aproximação ao cantor Lokua Kanza, que interpretou, neste disco, a belíssima canção “Hino a Kalandula”. 
    Em “Muenhu” estão alinhadas as canções “Filha de África”, “Mestre Geraldo”, “Ndange”, “Ugitu”, “Meditação”, “Angolana Mãe”, “Kikola”, “Criança de Benguela”, “Dikaza”, “Requebrar”, “Ndala Ikanga” e “De Coração para ti”.

    por Jomo Fortunato oara Jornal de Angola 

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