Entrevista com a autora Lícia Manzo Da Novela Vida da gente

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Lícia Manzo estreou como autora aos 15 anos, assinando o primeiro texto encenado pelo Grupo Além da Lua, fundado por ela e vencedor do Prêmio Molière como o melhor grupo de teatro para crianças, em 1984.  Há 14 anos na TV Globo, escreveu para os humorísticos ‘Sai de Baixo’, ‘Retrato Falado, ‘A Diarista’, entre outros, e foi redatora final do seriado ‘Tudo Novo de Novo’, com direcção geral de Denise Saraceni, em 2009.

 

Mestre em Literatura Brasileira pela PUC/Rio, publicou o ensaio biográfico “Era uma vez: eu – a não-ficção na obra de Clarice Lispector”, indicado para o Prémio Jabuti, em 2003.  Autora do sucesso “A História de Nós 2” (indicado para o Prémio Shell na categoria melhor texto), assina ainda o texto do espectáculo “Aquela Outra”, com direcção de Clarice Niskier, e estreia prevista para novembro, no Rio de Janeiro.

 

O que significa escrever para si?

Lícia Manzo: Escrever é uma maneira de compreender o mundo. De alquimizar o que se vive, de projectar e misturar experiências de vida. É algo realmente íntimo para mim. Eu interesso-me por gente. Gosto de relações humanas, de pensar sobre isso. Por isso quis chamar a novela de ‘A Vida da Gente’.

 

Como você definiria o seu estilo?

Lícia Manzo: Tenho um gosto pelo que é humano, pelo bastidor, pelo o que se passa no íntimo de cada um. Um gosto pelo privado.

 

Como surgiu a ideia da novela?

Lícia Manzo: É difícil definir. Ano passado tive a notícia de que duas pessoas que haviam trabalhado comigo entraram em coma. Talvez pensando nessas pessoas, tenha sido capturada pelo tema. O coma tem um caráter emblemático, parece estacionado na fina fronteira entre a morte e a vida. E eu diria que o coma (ou a volta do coma, e reencontrar sua vida seguindo sem você), é o eixo central da novela… Em volta deste eixo, procurei construir uma espécie de ‘crónica’ das relações familiares actuais. São situações de família em trânsito. Não a família como uma noção estática. Famílias que se decompõem e se recompõem, buscando encontrar um novo equilíbrio a partir do afeto. Personagens ‘novos’, ou que estamos começando a conhecer e experimentar agora em sociedade: mulheres provedoras; homens domésticos; crianças terceirizadas; recasamentos; sexualidade na terceira idade; pais adotivos; pais biológicos; reprodução assistida, enfim…

 

No seu ensaio biográfico sobre a escritora Clarice Lispector (‘Era uma vez: eu – a não-ficção na obra de Clarice Lispector’/Ed. UFJF/2003) você afirma que Clarice compôs uma espécie de relato ‘autobiográfico’ através de sua ficção.  Você diria que isso acontece com as suas histórias também?

Lícia Manzo: Eu diria sim, que costumo beber da minha fonte. Ou, como diria Tolstoi ‘para ser universal, fale da sua aldeia’…  E minha aldeia mais profunda é a aldeia familiar. Extraio muita coisa daí. Acredito mesmo que o que você esconde no seu íntimo, muitas vezes o que você não confessa aos outros, algo que te envergonha, nossas pequenas inabilidades ou fracassos, tudo isso é ouro na sua ficção. ‘A História de Nós Dois’, texto meu em cartaz há dois anos e meio, tem muito a ver, por exemplo, com minha experiência como mãe, mulher e profissional, e com a dificuldade de lidar com estas três “funções” ao mesmo tempo…

Como você define a novela?

Lícia Manzo: O escopo da novela é a família que, há tão pouco tempo, se pensarmos historicamente, há pouco mais de 50 anos, era algo rígido, imutável: um pai, uma mãe, filhos, um cachorro… Há muito pouco tempo era um tabu romper essa estrutura. E hoje o que temos: lares desfeitos e refeitos, crianças de diferentes sobrenomes convivendo debaixo do mesmo teto, mães e pais solteiros, enfim, mil formas de configuração familiar possíveis… E quis trazer para o centro da ficção o que estamos experimentando hoje… Penso que, quando falta a tradição, é o amor que legitima todos os laços…

 

É uma novela tradicional?

Lícia Manzo: Inteiramente. Embora aborde novas configurações em família, a novela segue uma  estrutura tradicional, clássica, sem nenhuma pretensão de inovar coisa alguma. Ao contrário. Nela pago um tributo a tudo o que me formou e a que assisti a vida inteira. ‘A Vida da Gente’ é um melodrama tradicional.

O que é família pra você?

Lícia Manzo: Família é o teu mapa. A conexão que te funda e te sustenta no mundo. É algo fundador de quem você é. Porém, para além dos laços sanguíneos, penso que o que prevalece são as verdadeiras trocas estabelecidas com quem te enxerga, te percebe, te acolhe, te respeita. Isso é família para mim.

 

Você participou da escolha do elenco?

Lícia Manzo: Claro, e felizmente foi um processo bastante harmonioso. O Jayme (Monjardim) trouxe opções muito boas e o que eu sugeri ele também gostou, enfim, chegamos ao elenco que a gente queria.

 

Como é a parceria com o Jayme. Você já o conhecia?

Lícia Manzo: Conhecia e admirava o seu trabalho, naturalmente. E ao conhecê-lo agora pessoalmente, pude entender a razão do sucesso de tudo o que faz. Além de gentil e democrático, trabalha com paixão e entrega totais. É um esteta, um poeta das imagens, com muita sensibilidade no trabalho com os actores, enfim. Agradeço todos os dias a novela ter ido parar às mãos dele.

 

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