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    Grande Entrevista Unitel Com Paulo Pascoal : "Eu não tenho orientação sexual, sou um desorientado "

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    Paulo Pascoal o modelo, cantor, ator angolano que passou de fenómeno a embusteiro, de bonito a feio e de grande êxito das bancas a desaparecido… Mas a verdade é que Paulo Pascoal não está desaparecido e a sua carreira internacional continua em ascensão. Somente este ano, foi cara de inúmeras campanhas publicitarias, entre elas a do BFA (Banco de Fomento Angola), da SONY(Malaysia), da British Airways (Inglaterra), da empresa norte-americana que apoia jovens empreendedores PAYE (Partnership to Advance Youth Employment) e cedeu voluntariamente a sua imagem para Checkpoint Lx, um centro comunitário onde se fazem testes de detecto de VIH de forma anónima, confidente e gratuita. Paulo Pascoal foi ainda escolhido para dar voz a alguns desenhos animados do canal Nickelodeon. Após ter lutado contra um cancro, Paulo decidiu abandonar Nova Iorque e viajar em retiro espiritual pelo mundo fora. Conheceu mais de 75 cidades em 33 países, mas sobretudo conheceu-se mais a si, porque segundo ele “a maior viagem foi a interior”. Profissionalmente a sua prioridade é agora a representação, depois de ter estudado na famosa The Julliard School de Nova Iorque. Vimo-lo levantar vôo na primeira co-produção luso-angolana “Voo Directo” com o papel de Hélder Sousa. E recentemente acabou de gravar a mega produção da SP para RTP1 “Depois do Adeus”, uma série de época que retrata o período pós-descolonização de Angola. Nesta série, que promete dar que falar, Paulo Pascoal é o único angolano a fazer parte do elenco principal, constituído por 27 atores, onde veste a pele de Filipe Perdigão. Conheça agora um pouco mais desse pássaro da Maxinde que continua a voar pelo mundo… Saiba mais sobre Paulo Pascoal numa entrevista dirigida por Edwaldo Pegado.

    “O meu maior património são as minhas experiências na vida, e penso que a minha contribuição como ser humano, para Angola e para o mundo é muito maior do que a minha orientação sexual.”

    Platina Line: Saiu muito cedo de Angola, conheceu a Europa, esteve em Espanha em primeiro lugar, foi para estudar, qual a sua visão da Europa assim que chegou?

    Paulo Pascoal: É complicado, porque isso é voltar aos meus 12 anos de idade. Estava muito feliz, acho que qualquer Angolano que naquela fase, logo a seguir à guerra militar, em 1992, fosse enviado para estudar no primeiro mundo ficaria feliz. Na altura agarrei-me à fé, à igreja, como forma de proteger os meus, coloca-los fora de perigo, porque estava longe, toda minga familia estava em Angola. Ir para a Europa foi bom no início, tive aquela excitação de viajar sozinho, mas depois foi doloroso, porque não imaginava o quanto era difícil estar sozinho. Custou-me quando fui para o seminário, porque era o único negro, não sabia falar a língua e não tinha o apoio que se tem em casa, ali era tudo tratado sem carinho, cada um por si, e houve vezes em que me senti alienado. Tive de encarar tudo como uma máquina, eu estava ali para estudar, para me formar e eventualmente tirar a minha família do caos.

    Platina Line: 20 anos depois qual a realidade que sente entre a Europa e Angola?

    Paulo Pascoal: Agora penso que o caos está invertido. A Europa está em crise, principalmente na indústria em que eu estou inserido, e Angola é agora o sitio das oportunidades, onde todo o mundo quer ir. As pessoas estão receptivas a coisas novas, tudo está a acontecer, há dinheiro e possibilidade. É o que costumo dizer aos meus amigos, os Angolanos estão famintos, querem tudo e podem ter tudo, essa é a diferença, enquanto que aqui as pessoas estão a reduzir em tudo, lá estamos a ter tudo cada vez maior e melhor. Se saímos para estudar e voltar para tentar ter um cargo, ou uma vida mais decente, chegou a altura de voltar.

    Platina Line: Nesse tempo que esteve em Portugal, tem ido para Angola?

    Paulo Pascoal: Eu fiquei 6 anos sem ir para Angola. Nos últimos dois anos tenho ido com alguma frequência, normalmente fico por temporadas de dois, três meses, algumas vezes relacionadas com projetos que tenha para fazer. E tenciono ir em breve.

    Platina Line: Voltar para Angola definitivamente, faz parte dos planos?

    Paulo Pascoal: Penso nisso, mas não posso dizer que faz parte dos planos, porque não planeio nada. Penso que as coisas têm de acontecer de forma fluente, já planeei muita coisa na minha vida, e como disse antes, a minha juventude foi tipo máquina, com objetivos muito vincados e tinha as coisas muito programadas e por vezes não sentia o que estava a fazer, porque simplesmente tinha de as fazer. Com os obstáculos e quedas na vida aprendi que tenho de sentir mais as coisas, deixar fluir e não estar tão obcecado com os objectivos, ou com o que quero para mim. Então eu não posso dizer que voltar para Angola é um plano, porque não estou mal aqui. Mas gostava de voltar, para mim Angola é um grande desafio, porque em Angola não tive uma infância fácil. Não venho de uma família bem estruturada, sempre tive dificuldades e sempre passei por momentos menos bons. Depois de estar este tempo todo fora, voltar para Angola, traz aquela necessidade de me enquadrar. Hoje, cada vez mais, sinto que como Angola se está a expor ao mundo e está a ascender, já não há tanto a diferença de mentalidades e de ideias, as pessoas já começam a aceitar um pouco mais as minhas ideias, ou melhor, já nos começamos a perceber melhor. Mas isso é uma coisa que, por exemplo, em 2002/03 quando fui para lá, para lançar o meu álbum, sentia que era outra cultura e senti que fui muito mal interpretado, e que as pessoas faziam um drama de coisas que para mim eram simples. Como eu vivia em Nova Yorque estava habituado a um estilo de vida diferente, que em Angola chocava as pessoas. Mas sinto que um dia vou voltar a Angola, porque é algo que quero e para mim é um desafio chegar lá e sentir-me em casa e estar bem.

    Platina Line: Existe algum segredo na tua vida que ninguém sabe?

    Paulo Pascoal: Eu não tenho segredos, falo tudo com todos os meus amigos. Mas obviamente sei que tenho de ter diferentes registos de diálogo e saber o que posso dar e a quem. Se te estás a referir ao meu público de Angola, é claro que não chego lá e “grito” a minha vida, mas não escondo nada.

    Platina Line: Com o seu vasto currículo falta-lhe ainda fazer muitas coisas?

    Paulo Pascoal: Ainda não fiz quase nada! O muito que fiz é pouco. Se antes eu achava que estava à frente, em muita coisa, hoje sinto-me subaproveitado. Tenho consciência que tenho alguns dons que sempre me fizeram uma pessoa empenhada nos projectos em que me envolvo. Ultimamente sinto-me um pouco subestimado, porque me sinto meio perdido, tem a ver com as viagens constantes, com o facto de sentir que estou sempre de passagem, sinto que preciso de ganhar raízes. Isto acompanha-me desde a infância, andei sempre a saltar de sítio em sítio, não sei onde pertenço e sempre tive resistência em criar amigos por não os querer perder. Só recentemente, nos últimos 5 anos, é que comecei a ter aquele tipo de amigos a quem se liga todos os dias. Só agora estou criando raízes.

    Platina Line: Das coisas que lhe faltam fazer, em relação á música, o que pensa realizar?

    Paulo Pascoal: Eu já tentei várias coisas no mundo da música, pop –rock, soul, R&B, mas nunca tentei fazer música angolana. O ano passado, quando tive em Angola, troquei conhecimentos com uns DJ’s e produtores que fazem Afrobeat, eu gosto muito dessa onda. Cheguei a pensar que era uma boa altura para mostrar aquilo que eu sei fazer melhor, mas desta vez com um sabor a África. Contudo, a música tem estado em segundo plano.

    Platina Line: Foi depois do incidente com a peruca?

    Paulo Pascoal: Quando isso me aconteceu, todas as pessoas me fecharam as portas. Ninguém se queria associar a mim porque eu tinha passado uma vergonha. E se antes do incidente eu era “o Paulo Pascoal” que toda gente conhecia,quando aconteceu o episódio da peruca já ninguém me conhecia, e isso desencadeou uma serie de duvidas em relação a minha pessoa, inventaram muitas historias. Mas pensar que fui banido porque usava uma peruca fez-me pensar o quanto Angola precisava de crescer. Doeu-me conhecer algumas pessoas, ver esse lado indecente das pessoas, ver o interesse e o oportunismo que se tinha instalado à minha volta. Havia pessoas que eu achava que estavam do meu lado, eram amigos, que estavam ali para me dar força mas quando deixei de ser o fenómeno, algumas dessas pessoas nem sequer me falavam. E quando és um jovem com 19 ou 20 anos – aos 18 anos comecei a gravar as músicas em Nova Yorque, portanto lancei o álbum com 20 anos – era muito novo, sem grande estrutura familiar, já vivia fora, e não tinha a quem me apegar. Foi uma fase difícil mas que me fez crescer imenso.

    Platina Line: Foi isso que o afastou dos palcos até hoje?

    Paulo Pascoal: Foi sim! Levei demasiado tempo para recuperar disso. E quando tentei irecomeçar, era como se tivesse apagado o cantor dentro de mim.

    Platina Line: Pensa que há pessoas que lhe devem um pedido de desculpas?

    Paulo Pascoal: Eu penso que mereço um pedido de desculpas, de mim próprio. Eu mereço perdoar-me e desculpar-me. Não posso viver das expectativas que eu crio em relação aos outros, nem posso esperar que elas me peçam desculpa. Existem muitas pessoas que foram indecentes comigo, muitas continuam a sê-lo, mas isso foi o que escolheram. Cada pessoa tem o seu processo e eu espero que um dia a vida lhes ensine mais do que isso.

    Platina Line: Qual a ideia que tem do povo Angolano, depois desse incidente?

    Paulo Pascoal: Para mim, apesar de tudo, é o melhor público do mundo. Eu ainda tenho muitos fãs angolanos que continuam a seguir-me, passados todos estes anos, através das redes sociais. Da mesma forma que existem aquelas pessoas que me odeiam há aquelas que gostam de mim. Penso que comigo foi de extremos quem gostou, ama-me e continua a seguir o meu trabalho e quem eu sou. Quem não gostou, odeia-me e colocou uma barreira que os impede de me conhecerem. Mas para mim não existe melhor público que o Angolano,porque é de lá que eu venho. Como costumo dizer, tudo o que faço lá dá-me muito mais satisfação do que aquilo que eu possa fazer nos EUA ou aqui em Portugal. Angola é a minha terra, e tudo o que possa fazer pela minha nação dá-me muito mais prazer e orgulho. Até porque em Portugal ou nos EUA, serei sempre um emigrante, até posso conseguir fazer coisas, mas serei sempre um emigrante, não vou ter o povo todo a apoiar-me.

    Platina Line: Apesar de ter perdido um pouco a sede de cantar, está dentro da música Angolana, a par das atualidades?

    Paulo Pascoal: Sim.

    Platina Line: Qual a ideia que tem atualmente da música angolana?

    Paulo Pascoal: A música Angolana está a crescer, penso que o ano passado saíram cerca de 200 artistas, neste momento há muita gente a cantar. Mas isso é como tudo, nem todos têm qualidade. Mas há coisas muito boas, muito inovadoras, não quero citar nomes. Tenho de destacar, obviamente, a ascensão do Kuduro, enquanto fenómeno cultural e social. Mas acredito que se trata de uma tendência e que terá de saber sobreviver ao tempo.

    Platina Line: Sobre a música que gosta, de quem gosta?

    Paulo Pascoal: Eu gosto de muitos. Mas tenho de falar no fenómeno em que se tornou a Titica, penso que ela é corajosa. O que ela está a fazer por Angola, neste momento, só por ser quem é! Titica, como transsexual, foi convidada a fechar a gala das divas Angolanas, na presença do presidente – eu estive lá nessa altura – isto é um feito admirável. São estas contradições que eu adoro ver em Angola. Conheço a Titica pessoalmente e adoro-a como pessoa, é um exemplo de alguém que eu gosto, sou fã.

    Platina Line: E se perguntar, de quem não gosta?

    Paulo Pascoal: Não gosto de quem não tem opiniões construtivas. Há pessoas que dizem coisas sobre mim e quando chegam a mim eu fico chocado. Eu adoro o Paulo Flores, e o Paulo é amigo de muitos músicos Angolanos, e ele dá-me feedback daquilo que se estar a passar no mundo da música, e ele para mim é um ídolo. E o facto de ter uma relação mais pessoal com ele e com a Irina permite-me aprender ainda mais sobre a cultura Angolana, porque eu a certa altura desliguei-me um pouco, não intencionalmente, mas por viver muito longe. Nos anos 90 e no inicio da decada de 2000, não havia internet, nem tão pouco o youtube, nem tudo o que há hoje em dia, era tudo muito mais complicado, tanto que eu tive uma carreira em que, postar algo na internet não existia. Agora, o acesso que temos á tecnologia permite-nos conhecer melhor a música Angolana.

    Platina Line: Sabemos que é uma pessoa muito ligada à moda, é modelo, qual a sua visão da moda Europeia, tendo em conta ser a mais procurada de momento? Paulo Pascoal: Eu penso que estamos numa fase em que cada vez estamos mais sofisticados. Por exemplo, antes os rappers usavam todos calças largas e t-shirts largas, mas de repente aparece um Kanye West e um T.I. e agora todos são “sleek” e usam blazers, e os sapatos Louboutins. Adoro ver isso, porque adoro a elegância e um bom look. A influência, sem dúvida, é a moda Europeia, e a meu ver, os melhores designers estão na Europa. Eu não sou um fanático da moda, no sentido de seguir as tendências, eu sempre gostei do estilo vintage apesar de ter algumas pecas de estilistas de renome. Há 15 anos que me visto assim, compro roupa em segunda mão, que encontro naquelas lojas vintage típicas das grandes cidades, porque gosto de saber que comprei uma peça que já teve no armário de alguém e que tem historia, que é única e já não se faz. Porque na minha opinião isso é autenticidade. Infelizmente para mim ou felizmente para todos, o look vintage é muito procurado e muita gente está a aderir. Muita gente comprava roupa em segunda mão porque era mais barato, mas isso mudou, e hoje comprar roupas vintage é caríssimo. Enfim no geral não sigo muito as tendências, sei quem são os estilistas e as marcas mais influentes, e lido muito com pessoas que trabalham com moda, mas acho cansativo estar sempre a seguir os outros, é uma lavagem ao cérebro. Somos obrigados a consumir todos o mesmo, as pessoas não se apercebem, mas acabam por querer apenas aquilo que os outros já têm, acabam por querer ser iguais.

    Platina Line: Pensa que os Angolanos, no geral, estão um pouco nesse pensamento, de querer aquilo que vêem em alguém?

    Paulo Pascoal: Penso que o Angolano durante muito tempo esteve privado de algumas coisas, vivemos 30 anos de guerra e agora que isso acabou e o Angolano tem poder de compra, quer tudo. Mas como houve 30 anos de lapso de informação sobre muitas coisas, hoje o que é mais comercial é o que as pessoas querem. Então de repente vês, como nunca, mulheres Angolanas vestidas pelas melhores casas do mercado internacional, porque é o que elas estão habituadas a ver nas revistas. Mas usar um sapato ou vestido de marca não quer dizer que esteja necessariamente na moda, é trabalho feito. Para mim eterna moda, é alguém que consegue usar tudo, estar bem e a fazer sentido, não estar mascarado. Estar na moda é usar uma capulana, ou um chapéu ou ir descalço e as pessoas olharem e dizerem: ”grande estilo”, para mim isso é que é moda. A Irina Flores é daquelas pessoas que eu adoro ver, porque ela é super arriscada no que usa, e sempre sem pretensão.

    Platina Line: Projetos individuais que tenha de momento?

    Paulo Pascoal: Eu sou um género de inventor dos projetos. Porque eu escrevo, faço voice-overs e muitas outras dentro do mundo do entretenimento, especialmente teatro, estive a trabalhar com a Mónica Lafayette para termos um programa de televisão sobre lifestyle e tendências, estou com intenções de produzir uma curta ou longa metragem. Quero também retomar, não sei quando, a carreira musical, e criar algo que mostre as minhas raízes africanas. Mas que não me coloque de novo no mercado como um americano “wanna be”, porque penso que esse foi também o meu erro, as pessoas viram-me como aquele angolano que veio trazer música americana que eles já conheciam e não a música da terra. Além da minha carreira artística, abracei um projecto inovador que visa apoiar jovens empreendedores. Sou sócio na Up to Start (www.uptostart.com), uma empresa que desenvolve todos os passos para a criação de um negócio de sucesso. Um empreendedor tem uma boa ideia mas não sabe como torná-la rentável, nós tratamos disso.

    Platina Line: Qual a tua orientação sexual?

    Paulo Pascoal: Eu não tenho orientação sexual, sou um desorientado (risos) Platina Line: Como classifica isso?

    Paulo Pascoal: Como alguém que gosta de pessoas.

    Platina Line: Independentemente do sexo?

    Paulo Pascoal: Sim independentemente do sexo, eu gosto de pessoas. O que não gosto é os rótulos que dão ás pessoas, o ser gay, ou ser heterossexual, ou ser bissexual, porque para mim têm uma carga prejurativa. As pessoas ouvem a palavra gay e associam a ser feminino, querer usar salto alto e andar maquilhado. Ainda no outro dia conversava sobre isto com um amigo e perguntava: “Diz-me algum cantor ou ator negro que tenha “saído do armário?” – Conseguem dizer-me alguém? – Ninguém se atreve, muitos preferem continuar com a sua namorada e dar as suas curvas por aí, do que assumir aquilo que são. Eu penso que isso é triste, eu não vivo essa realidade, daí não me sentir obrigado a ser etiquetado como hetero, gay ou bissexual. Mas as pessoas gostam de rotular, maioritariamente para insultar os outros, hoje em dia chamarem-me gay é o mesmo que me chamarem preto, ou falarem das minhas pernas magrinhas, é para o lado que durmo melhor, é-me indiferente. Mas tenho pena porque percebo que o mundo, por muito que esteja evoluído, ainda é muito retrógrado. Imagina como este tipo de coisas limitam as pessoas, temos os exemplos de Elton John, George Michael, que só não sofreram impactos maiores porque já tinham uma carreira muito sólida. Mas temos um caso mais recente, o do Ricky Martin, que começou com uma carreira gloriosa como sex symbol e só mais tarde é que “saiu do armário”, ele não descobriu aos 40 e tal anos que era gay, protegeu a sua carreira de modo a não perder os fãs, o núcleo feminino que lhe dava o prestígio. Isto para mostrar que tem de se ter o cuidado de perceber até que ponto já trabalhaste e já te afirmaste, para poderes ter uma atitude tão real em relação ás coisas, porque as pessoas não estão habituadas a ser confrontadas dessa forma. Eu pelo menos penso assim, e quero que as pessoas que lêem a entrevista dêem-me a oportunidade de me conhecer, e não de me comparar ou etiquetar, porque normalmente é isso que acontece, as pessoas procuram algo para apontar, alimentam-se das coisas más e é assim que se vive nesta última década. Parece que todo o mundo quer ver a decadência, ver o mal dos outros, isto porque, não querem parar para se confrontarem a elas próprias. Todos temos guerras e conflitos internos, mas é muito mais fácil apontar o dedo ao próximo, do que parar e pensar em nós e questionarmos-nos: “quem eu sou ?”, “O que estou aqui a fazer?”, “O que é que eu já fiz que me dá o direito de julgar os outros?”. E na questão da minha sexualidade eu respondo que gosto de pessoas e o meu maior património são as minhas experiências na vida, e penso que a minha contribuição como ser humano, para Angola e para o mundo é muito maior do que a minha orientação sexual.

    Platina Line: É uma pessoa muito ligada á religião? Tendo em conta que já frequentou um seminário e que já pensou em, um dia, ser padre?

    Paulo Pascoal: Eu tive uma educação católica, os anos que estive no seminário foram basicamente a estudar de manha á noite, embora tivéssemos disciplinas como ciências, matemática e outras, havia uma autentica lavagem ao cérebro, pois éramos completamente isolados de informações exteriores e só te alimentam com informações da igreja. Isso faz com que as pessoas se tornem fanáticas, há pessoas que não aprenderam mais nada na vida a não ser, a bíblia e a religião e eu não gosto de me limitar dessa forma. Após sair do seminário, após estar 7 dias por semana, 24 horas por dia, percebi que os padres são seres humanos como qualquer um de nós, têm falhas e cometem erros, não são divinos, porque divino é Deus. Tive uma ruptura com a religião e apenas ia á igreja quando ia a casamentos ou a funerais (risos). Mas passei por fases difíceis na vida e senti a necessidade de acreditar em algo superior á humanidade. Porque o homem é cruel e muito egoísta e precisei de me agarrar a algo superior para seguir em frete, e agarrei-me de novo a Deus, mas com uma visão diferente, mais espiritual. No fundo uma compilação de tudo o que já li, já aprendi, com as coisas que já fiz, com as viagens, o budismo, islamismo e outras seitas, que apresentam algumas caracteristicas que eu gosto e basicamente criei uma crença só minha. Sou um pouco isotérico nesse sentido, há terapias que me ajudam a perceber um pouco sobre o mundo e a informação não nos faz mal.

    Platina Line: O que mudou na vida do Paulo depois da doença?

    Paulo Pascoal: Tornei-me numa pessoa melhor.

    Platina Line: O espiritualismo, aumentou após a doença?

    Paulo Pascoal: Eu sempre fui espiritual, mesmo quando estava no seminário, eu acreditava em Deus e sempre quis fazer o bem, e sempre quis ser o mais próximo da perfeição possível. Hoje em dia já não sou assim, já me aceito como sou e claro que quando passamos por um cancro e aprendemos a viver com a morte ao lado, faz-nos pensar o que fizemos para nos ter acontecido isso, porque eu tinha 25 anos. Cheguei á conclusão que tudo aconteceu porque eu não estava a conseguir viver com o que estava a fazer, eu penso que as doenças são uma manifestação interna do que passamos, como não conseguimos perceber o que estamos a fazer de errado, há uma manifestação física em doença para te aperceberes do problema. Eu penso que qualquer doença que tenhamos que se manifeste no físico, primeiro começa a nível psicológico, passa para o emocional, logo ao nível energético e só depois manifesta-se no físico. Se não conseguires perceber que tinhas um problema nesses outros níveis vem uma doença, para que enquanto estas mal, pensares em ti e no teu interior.

     

    Platina Line: Nessa altura, sentiu apoio de familiares e amigos?

    Paulo Pascoal: Nessa altura percebi que tinha muita gente que me amava e apoiava. Fui completamente auxiliado, aliás tive uma despesa de 400.000 dólares de hospital para pagar que os meus amigos angariaram, junto de pessoas que eu nem se quer conhecia e que ao descobrirem a minha história decidiram ajudar-me, mas foram muito poucas as pessoas que eu já conhecia, que me quiseram ajudar, nem de Angola, isto tudo ocorreu em Nova Yorque. Como não conheço ao certo todas as pessoas que me ajudaram tenho sempre muito cuidado e tento sempre ser muito gentil porque é isso que agora tenho de fazer, estar pré-disposto a ajudar o próximo.

    Platina Line: Neste momento as “suas terras” são Luanda, Nova Iorque e Lisboa?

    Paulo Pascoal: Sim, é isso mesmo. Sem dúvida, estou a tentar equilibrar o meu triângulo amoroso.

     

    Fotos: Roger Mor

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