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    O Albinismo e os seus mitos afectam até clubes de futebol-" A ignorância mata"

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    No fim de semana passado, foi bastante comovente quando durante uma partida de futebol entre o Recreativo do Libolo e o kabuskorp, um dos rapazes do Libolo sentado no banco de suplentes, foi acusado pela equipa adversária de feitiçaria e por este motivo obrigado a deixar o campo sob intervenção da polícia para evitar agressões físicas contra o rapaz. A razão devia-se ao facto do jovem ser albino. O mais agravante é que aparentemente esta não foi a primeira vez que o mesmo episódio aconteceu, sendo que já  na segunda volta do gira-bola 2011 em Calulo, o mesmo  jogador foi submetido  a humilhação idêntica ainda nos balneários, só que desta vez na ausência da intervenção policial o jovem foi escorraçado e obrigado a abandonar o local sobre ameaças.

    Pois é, se os dirigentes de um dos clubes mais populares de Angola permitem tais atitudes a nós só resta perguntar afinal de contas o que é o albinismo?…

    De acordo com a ciência, o albinismo é um “distúrbio congénito”, associado a ausência completa ou parcial do pigmento responsável pela produção de melanina que serve para dar cor a pele, olhos, cabelo e proteger contra a radiação ultra-violeta.  Poucos sabem que o albinismo é hereditário e muitas vezes nem é necessário ter alguém com esta condição genética na família pois os factores responsáveis pela sua causa são absolutamente internos. Existem albinos negros, brancos e até animais sendo que a condição afecta normalmente a seres vertebrados.Nos seres-humanos, os portadores da deficiência têm a pele pálida e vulnerável ao câncer, cabelos finos e olhos sensíveis à luz.

    Na ignorância destes factos, no nosso continente devido aos mitos e crenças as pessoas albinas são estereotipadas e associadas a “actos maléficos” e envolvimento com forças ocultas. 

    Na África Oriental, pessoas albinas correm risco de vida por diversas razões dentre estas devido a uma superstição que atribuiu poderes super-naturais aos “zero-zero” como são pejorativamente chamados.  Muitos acreditam que eles (albinos), são criaturas de “sorte” portanto são mortos para que os seus órgãos sejam utilizados em práticas de bruxaria ou então para que o autor do crime ” herde a sorte” do malogrado. Incrivelmente, para assassinar homens, mulheres e crianças albinas existem até mesmo grupos especializados, com o dever de “caçar-lhes” enquanto a caminho de casa do trabalho ou da escola para posteriormente matá-los. O objectivo é amputar as pernas e aos mãos dentre outros órgãos  que são vendidos à pessoas que usam como talismãs, para de acordo com às suas crenças dar sorte ou afastar maus espíritos. As partes mais valorizadas do corpo de um albino (dedos, língua, braços, pernas e genitais) podem ser comercializados por valores absurdos. 

    Apesar de a incidência do albinismo nesta área do Continente estar cinco vezes acima da média mundial, a demanda é tão grande que a Tanzânia por exemplo, importa clandestinamente pedaços de corpos. Pescadores tecem fios de cabelo de albinos em suas redes para ter sucesso na pescaria. Mineiros penduram no pescoço amuletos feitos com seus ossos moídos. Quem consegue beber o sangue ainda quente de um albino “tem sorte em dobro”. Melhor ainda se for de uma criança, pois a pureza infantil intensifica o poder do feitiço. Lembro porém, que isso acontece em países da África Oriental… Em Angola a nossa realidade não chega a esse extremo.

    No nosso país, felizmente os albinos não são assassinados devido ao tráfico de órgãos ou então por serem seres ” sortudos”. Em Angola até temos pessoas albinas ocupando cargos de respeito dentro da sociedade. Aparecem publicamente e tentam levar uma vida normal. Embora devemos reconhecer que a vida de um albino em Angola também não é nada fácil. 

     
    Devido a pele frágil os albinos são mais vulneráveis ao câncer da pele e precisam de protetor solar diariamente para os proteger dos raios solares. Não preciso sequer mencionar que a realidade de muitos angolanos não permite a compra frequente do produto que por acaso não é nada barato por ser importado e o clima tropical Angolano não ajuda muito neste aspecto. Todavia, por mais incrível que pareça, o maior obstáculo dos albinos angolanos encontra-se dentro de uma sociedade que tem bastante dificuldade em aceitar a diferença e de alguns indivíduos que em pleno seculo XXI ainda possuem uma ignorância patológica.

    Para começar, em Angola, os albinos são conhecidos  pelo termo “kilombo” que segundo alguns no nosso dialecto kimbundo significa “diferente”. São constantemente obrigados a redimirem-se diante de provocações e outros apelidos como: “seres inacabados”, “russos” dentre outros que ferem a sensibilidade humana. Vejamos que se um negro for chamado de preto ou macaco por alguém de outra raça ao invés do nome, com certeza dirá que foi vítima de racismo e discriminação. Mas ter um negro a chamar esses nomes a pessoas albinas que por ventura em Angola, são na sua maioria de raça negra pelos vistos é admissível.

     


    Estas pessoas esquecem-se ou talvez não sabem, que apesar da ausência da cor que os torna “diferentes” o sangue que corre nas veias destas pessoas é vermelho como os demais. Eles também têm sentimentos de dor e rejeição embora são muitas das vezes obrigados a esconder para não fazerem o papel de vítimas. Lembro que não faz muito tempo, num programa de televisão que abordava este assunto, um senhor albino quando questionado; se a inteligência dos albinos era proveniente da condição genética, sorte ou um mero acaso, disse e eu cito ” …os albinos não possuem uma inteligência superior a de ninguém, eles apenas esforçam-se porque conhecem as dificuldades que têm de enfrentar pelo simples motivo de terem nascido como nasceram”. Está bem que mitos e superstições existem e provavelmente vão existir por muito tempo, mas numa sociedade como a nossa que é muitas das vezes definida e criticada  por  dar indícios de ser bastante “moderna”, humilhações como a que o jogador do Libolo teve o desprazer de presenciar não deveriam sequer passar por despercebidas.

    O mais surpreendente  no caso deste jovem é que tudo isso aconteceu durante uma partida de futebol, lamentavelmente  pelos membros dirigentes da equipa adversária que em condições normais, seriam os responsáveis por ajudar a moldar a sociedade contra estes dentre outros preconceitos através deste desporto tão bonito e inclusivo que é o futebol.

    Sem mais argumentos, espero que sejam tomadas as  medidas necessárias não só para punir os responsáveis por este acto de ignorância, discriminação e danos morais contra o rapaz mas também para prevenir futuros incidentes semelhantes. Nas palavras de um anónimo, ” …todo o cidadão Angolano é igual perante a lei, nao importa a sua raça, cor, etnia e religião , o acto ocorrido na cidadela foi vergonhoso…” este jovem é um filho, um irmão, como todos nós e já passa por constrangimentos suficientes no seu dia-a-dia, este seria absolutamente desnecessário.

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