O percurso musical de Carlos Lamartine

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O CD “Histórias da casa velha” (2002), um balanço da carreira musical de Carlos Lamartine, constitui uma importante mostra do longo caminho percorrido pelo cantor, e coloca o conjunto da sua obra no ponto mais alto da música de intervenção.
Politicamente engajado, Carlos Lamartine representa uma geração que elegeu como princípios básicos de criação artística o tratamento e valorização do cancioneiro popular, a exaltação da história política de Angola, a liberdade, a emotiva celebração da independência e a defesa dos valores culturais da africanidade. 
Carlos Lamartine acompanhou os momentos mais importantes da história da Música Popular Angolana, desde o “período de ouro” da época colonial, passando pela fase da independência, até à contemporaneidade, e vem construindo uma carreira que, embora valorizando a pluralidade estilística e conceptual da modernidade musical, defende um segmento artístico que o próprio designa de “música angolana de raiz popular”.
O horizonte poético da esperança, a evocação aos heróis da luta de libertação, o retorno aos costumes da tradição, o apelo à unidade dos homens e a denúncia das injustiças sociais, constituem os temas nucleares das canções de Carlos Lamartine, muitas das quais fazem parte da memória colectiva dos angolanos.

História do nome

O pai de Carlos Lamartine, Sebastião José da Costa, foi um intelectual, e homem de cultura, interessado pelas coisas da ciência. 
Sabe-se que era seu hábito dar o nome de grandes figuras da literatura e da ciência aos seus filhos. Alphonse Marie Louis de Prat de Lamartine (1790-1869) foi um escritor, poeta e político francês, autor de “Meditações poéticas” (1820), de quem, Carlos Lamartine, herdou o nome. O seu irmão, Jorge Pasteur José da Costa, Vate Costa, por exemplo, recebeu o nome de Louis Pasteur (1822-1895), o famoso cientista francês, cujas descobertas foram de capital importância para a evolução da química e da medicina.

O início da carreira

Carlos Lamartine começou a sua carreira musical em 1956, com o grupo “Kissueias do Ritmo”, conjunto musical formado por Nando Kajibota (caixa), irmão do Antoninho “Parte os Cornos”, do “Kituxe e seus acompanhantes”, Barceló de Carvalho (vocal e harmónica), David André (Tizinho, vocal), João Gonçalves (bailarino), e Inácio (dikanza e chocalho). 
O timbre do grupo ficou marcado pela sonoridade da harmónica de Bonga que imitava a forma como Cabolombo, um instrumentista pouco referenciado pela crítica musical angolana, tocava e investia neste instrumento.
Carlos Lamartine iniciou os estudos primários na Escola da Missão de São Paulo, em 1953, passou pela Escola da Liga Nacional Africana, e ingressou no Liceu Nacional Salvador Correia, em 1956. Passou ainda pelo Colégio da Casa das Beiras (1962-1963), tendo concluído, com êxito, a secção de letras do curso geral dos liceus.
Filho de Sebastião José da Costa, jornalista, dançarino da rebita, e um dos fundadores da Liga Nacional Africana, e de Ludovina da Silva, José Carlos Lamartine Salvador dos Santos Costa, nasceu em Benguela, no dia 29 de Março de 1943. O irmão, Teófilo José da Costa, foi uma das figuras emblemáticas do Carnaval de Luanda, e um dos fundadores do grupo Cidrália. Tanto o pai como o irmão, estimularam a propensão intuitiva de Carlos Lamartine para a música.
De 1958 a 1959, o grupo “Kissueias do Ritmo”, eivado de uma nítida consciência nacional e reagindo contra a crescente onda de repressão colonial, particularmente no Bairro Marçal, popularizou o tema “Em Luanda não há sambas”, uma canção da autoria de Carlos Lamartine, inspirada na rítmica do samba brasileiro.
Com a partida de Barceló de Carvalho (Bonga) para Lisboa, onde foi campeão de atletismo, extingue-se o grupo “Kassueias do ritmo” e Carlos Lamartine integra e ajuda a formar os “Muloges do ritmo”, grupo musical que teve vida efémera.
Carlos Lamartine fez parte ainda, de 1962 a 1964, como tamborista e vocalista, do conjunto musical os “Makoko ritmo”, e enveredou depois por uma carreira a solo, fazendo-se acompanhar pelos melhores conjuntos angolanos da época, de 1965 a 1970, incluindo o conjunto os “Kiezos”, grupo onde veio a substituir, temporariamente, o cantor Vate Costa, seu irmão, depois da sua prisão, na sequência de uma acusação no processo do caso “Milhorró”, uma canção que a ditadura colonial considerou ousada e subversiva.  
Em 1970, Carlos Lamartine foi a voz principal do conjunto “Águias-Reais”, com Manuelito (viola baixo), Gregório Mulato (percussão, nos bongós), Gino (Guitarrista solo), somando uma série de êxitos, num dos mais importantes grupos musicais luandenses, que existiu até aos finais dos anos setenta.
Na sua carreira a solo, Carlos Lamartine passou a ser acompanhado e gravou, de 1973 a 1977, com o conjunto os “Merengues”, e participou em diversas tournées nacionais e internacionais, com o emblemático conjunto Kissanguela.

A canção política

Carlos Lamartine distinguiu-se de 1974 a 1977, o célebre período da canção política, como intérprete e compositor e da sua obra ficaram conhecidas, pelo grande público, importantes canções, das quais destacamos “Ene” (eles), “Ó dipanda wondo tula kiá” (a independência vai chegar), “Zuatenu milela iá xikelela” (vistam-se de panos pretos), “Kimbemba” (canção dedicada a Agostinho Neto),”Pala ku nu abessa ó muxima” (venho cantar para vos agradar), “Etu tuana ngola tua solo kiá” (Os filhos de Angola já escolheram o MPLA), e “Ene ando builé” (Eles, referência aos portugueses, hão-de se cansar).

Obra discográfica


Carlos Lamartine gravou o seu primeiro single em 1970, com a etiqueta “Ngola”, um disco que inclui as canções: “Bazooka” e “Jesus dialá uá kidi”. Em 1974, surge o LP “Angola no I”, um monumento discográfico da canção política, com a etiqueta da CDA, gravado com o conjunto “Merengues”. 
Depois de um longo período de silêncio discográfico, cerca de 23 anos, surgiu seu primeiro CD, “Memórias” (1997), com a etiqueta RMS, Produções Musicais, disco que voltou a projectá-lo no quadro dos intérpretes mais prestigiados da Música Popular Angolana. Deste disco destacamos o semba, “Nvunda ku musseque”, que foi um dos seus grandes sucessos. 
Com o CD “Memórias”, Carlos Lamartine inicia um processo de fusão e modernização da sua música, interagindo com músicos de diversas escolas, criando um produto musical que atingiu níveis consideráveis d
e aceitação, junto da geração mais jovem. 
A canção “Kamuine”, do CD “Cidrália” (2001), registou um enorme sucesso, e Carlos Lamartine granjeou grande prestígio, na interpretação de temas do cancioneiro popular. Quatro anos depois do lançamento do CD “Cidrália, surgiu o disco “Frutos do Chão, são coisas nossas” (2005), um álbum que privilegiou o género semba, e teve as participações dos instrumentistas Betinho Feijó, Ciro Bertini, Joãozinho Morgado, Cervantes, Carlos Venâncio, Gui Destino, Botto Trindade e da Banda Maravilha. Carlos Lamartine está incluído numa colectânea de cantores e compositores angolanos, denominada “Êxitos de hoje” (1980), editada com o selo da ENDIPU.

 

Fonte: jornal de Angola por  Jomo Fortunato

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